03/09/2026 às 17:30 atualizado por
Guilherme Nannini
- Estadão |
Siga-nos no
São Paulo, 3 - O Regulamento da União Europeia para Produtos Livres de Desmatamento (EUDR), que entra em vigor no fim deste ano, deve estender seus efeitos para além das fronteiras europeias e forçar a adequação de cadeias de suprimento de café voltadas também a mercados fora do bloco, aponta estudo divulgado pela plataforma de transparência Trase. A avaliação indica que cerca de 79% das importações mundiais da commodity são intermediadas por tradings e empresas importadoras que também abastecem países membros da União Europeia (UE), o que cria incentivo econômico para a padronização global das exigências de rastreabilidade.
Conforme o levantamento, a forte sobreposição de operações entre os mercados consumidores torna operacionalmente inviável - e custoso - para as grandes tradings segregar lotes em conformidade com a norma comunitária daqueles destinados a outros países. Para muitas das principais empresas do setor, as compras europeias representam mais da metade do volume global de negócios, a exemplo da JDE Peets (84% do total direcionado à UE), Louis Dreyfus Company (63%) e Neumann Gruppe (53%). Diante desse cenário, a tendência é que as exigências socioambientais e de combate ao desmatamento impostas por Bruxelas sejam aplicadas pelas tradings em todas as suas operações globais, gerando o chamado "efeito Bruxelas".
O estudo ressalta que o reflexo indireto do regulamento pode favorecer consumidores de países que não têm legislações equivalentes, ao impulsionar a transparência em um setor no qual 60% do café é produzido em propriedades com menos de 5 hectares e 44% dos pequenos cafeicultores vivem abaixo da linha da pobreza. Em contrapartida, mercados na Ásia apresentam menor grau de integração com importadores europeus - como Coreia do Sul (30% de sobreposição com a UE), Filipinas (41%) e Japão (59%) -, o que pode levar tradings específicas, como a japonesa Mitsui, a optar pela separação física de suprimentos em vez da padronização total.
A análise da Trase também apoia o alinhamento regulatório entre a UE e outros países que discutem legislações de devida diligência, como o Reino Unido e os Estados Unidos. Segundo os pesquisadores da plataforma, a unificação dos critérios de rastreabilidade e de veto ao desmatamento reduz custos operacionais para as tradings e previne atritos comerciais, acelerando uma transformação estrutural em toda a cadeia global do café.