Taxas de juros disparam com aumento do risco fiscal esperado em governo Lula

26/10/2026 às 18:17 atualizado por Arícia Martins - Estadão | Siga-nos no Google News
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A inesperada reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que derrotou o candidato Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno por 4,4 milhões de votos, provocou uma reação negativa de magnitude sem precedentes no mercado de juros futuros nesta segunda-feira, 26, apenas levemente contida por intervenções do Tesouro Nacional no mercado de títulos públicos.

Os vértices longos chegaram a disparar 3 pontos porcentuais pela manhã, ritmo nunca visto em eventos de estresse, e que levou a B3 a elevar por 3 vezes os limites de oscilação das taxas dos contratos de Depósito Interfinanceiro (DI). O forte revés ocorreu na medida em que agentes ajustam seus cenários - que, ao terem como premissa uma vitória da oposição, precificavam um ajuste fiscal mais austero e rápido.

Com a frustração sobre o aguardado choque de credibilidade e expectativa de continuidade de uma política fiscal expansionista, as taxas percorreram a tarde em avanço ao redor de 2,5 pontos. A alta perdeu algum fôlego no final da manhã, quando o Tesouro anunciou leilão de recompra de até 15 milhões de Notas do Tesouro Nacional - Série (NTN-F), e também no final da tarde, após o órgão recomprar 1,76 milhão de Notas do Tesouro Nacional - Série B (NTN-B), de 3 milhões anunciadas. Dos papéis recomprados, 1 milhão se concentrou em vencimento para 2035.

Os leilões regulares da semana foram cancelados, à exceção do certame de Letras Financeiras do Tesouro (LFT).

Encerrados os negócios, a taxa do DI para janeiro de 2027 subiu de 13,464%, no ajuste de sexta-feira, a 13,723%. O DI para janeiro de 2028 avançou de 12,856% no ajuste a 14,905%. O DI para janeiro de 2029 saltou a 15,250%, de 12,64%, e o para janeiro de 2031 disparou de 12,641% a 15,240%.

No mercado secundário, as taxas dos títulos atrelados à inflação ficaram sem referência, diz Luis Felipe Vital, estrategista-chefe de Macro e Dívida Pública da Warren, o que dificulta uma análise. "Em muitos casos, o cancelamento de leilões seria suficiente para acalmar o mercado, mas nesta segunda não foi. É esperado que o Tesouro siga atuando", avalia.

Na visão da Warren, o governo deve ajustar seu discurso sobre as contas públicas, com o aceno de algumas medidas e de novos nomes na equipe econômica, e os preços de mercado devem pressionar para que isso ocorra. Passado um ajuste inicial nos mercados, a instituição se mantém construtiva sobre a reeleição de Lula.

"Será necessário ter uma organização das contas públicas e uma sinalização para os mercados, abandonando o discurso eleitoral e passando a um mais construtivo, com uma agenda econômica que mostre a intenção de colocar as contas públicas nos trilhos novamente", diz Vital.

Já o diretor de pesquisa econômica para América Latina do Goldman Sachs, Alberto Ramos, afirma esperar, "no máximo", medidas modestas para conter o avanço do gasto primário, conjugadas a novos aumentos da carga tributária. "Grandes reformas estruturais seriam improváveis", avaliou.

A precificação das próximas decisões de juros pela curva futura também foi comprometida pela volatilidade do pregão, mas a percepção é que, agora, o ciclo de baixa da Selic será mais magro. Após o resultado eleitoral, o ASA elevou sua projeção para a taxa terminal de 2026 de 13,25% a 13,50%, e a de 2027 de 12% a 13%.

Nomes que podem integrar a equipe econômica já estão sendo ventilados mas, em um dia de aversão a risco como nesta segunda, não chegaram a fazer preço na curva. "O mercado está procurando zerar as posições primeiro, para, então, ter uma reação mais racional", disse um trader à Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado), sob anonimato.


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