Taxas de juros se descolam do exterior e fecham em baixa, com quadro eleitoral no radar

18/09/2026 às 18:17 atualizado por Arícia Martins - Estadão | Siga-nos no Google News
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Os juros futuros se descolaram da pressão nos mercados globais de renda fixa, que antecipam mais aperto monetário à frente, e terminaram o pregão desta sexta-feira em queda. Agentes não viram um gatilho específico para a acomodação da curva a termo, que entrou no campo negativo no início da tarde, mas veem relação do movimento com a precificação do mercado de que a oposição pode sair vencedora das eleições. Também contribuiu um ingresso de fluxo aplicado em todos os vértices da curva, com mais força na ponta longa, segundo uma fonte.

Pode ter ajudado, ainda, o pedido do Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (MPTCU) para suspender o reajuste do Bolsa Família, num período do calendário em que todas as atenções se voltam às eleições.

Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 marcou estabilidade frente ao ajuste da véspera, em 13,555%. O DI para janeiro de 2029 cedeu levemente, a 13,840%, vindo de 13,845% no ajuste. O DI para janeiro de 2031 anotou baixa de 14,061% a 14,020%. Na semana, a curva a termo perdeu de 1 a 3 pontos-base nos principais vértices.

Divulgada na quinta à noite, a pesquisa Datafolha - que mostrou empate técnico entre o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), com o petista numericamente à frente - não fez preço pela manhã: os números foram lidos como "mais do mesmo", sem grande impulso da oposição. Os ativos costumam reagir positivamente quando Flávio melhora nas pesquisas porque, para parte do mercado, um governo de direita estaria mais inclinado a entregar um ajuste fiscal.

Mesmo com a Datafolha "neutra" e sem rumores sobre novas enquetes, agentes avaliam que foi o quadro político que permitiu o alívio nas taxas no restante da sessão, dado que os investidores têm precificado que Flávio pode ser eleito.

Para o estrategista-chefe da Sincra, Gustavo Cruz, o movimento que faria mais sentido na semana, assim como nesta sexta, seria de deslocamento para cima da curva, uma vez que ficou claro que os EUA vão subir juros ao menos mais uma vez. "Deveríamos ter visto uma reação mais forte da curva no Brasil, mas o quadro eleitoral e os acontecimentos no STF embaralharam um pouco o cenário, assim como o aumento do Bolsa Família", disse.

No período da tarde da quinta, o MPTCU pediu a suspensão do reajuste de 15% do benefício, anunciado pelo governo federal. Na solicitação, o órgão aponta que a medida pode ter desrespeitado a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), ao não indicar a fonte de custeio, tampouco estimativas de impacto financeiro, além de ser incompatível com as leis orçamentárias. "Isso também pode ter ajudado um pouco a curva", acrescenta Cruz.

Segundo um estrategista de uma grande casa, que falou sob anonimato, no período da tarde ocorreu um fluxo aplicado - ou seja, que aposta na queda das taxas - distribuído ao longo de todos os vencimentos da curva, com mais força no de janeiro de 2031, o que também ajudou na perda de fôlego dos juros.

Para Iván Riveros, estrategista de câmbio e juros para mercados da América Latina do Citi, os DIs podem continuar se descolando da postura mais conservadora do Fed, conforme já observado ao longo de setembro. "Nas próximas semanas, os ativos locais devem continuar sendo guiados principalmente por desdobramentos políticos, já que a divergência nos arcabouços fiscal e econômico dos candidatos moldará as expectativas do mercado para 2027", afirmou.

Nos EUA, os títulos soberanos continuaram se ajustando no período da tarde após a elevação de 0,25 ponto porcentual nos juros pelo Fed na quarta-feira, assim como a projeções de nova alta até o fim do ano. Nesta sexta, o aumento promovido pelo Banco do Japão (BoJ, em inglês) no juro básico do país, para 1,25% - maior nível em três décadas - e perspectivas de aperto adicional também pressionaram as curvas globais. Às 18h04, a taxa da T-note de dois anos avançava de 4,683% a 4,743%, enquanto a da T-note de dez anos subia de 4,937% para 4,993%.


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