A espera de sinalizações sobre qual será a política econômica a partir de 2027 ganhou novos contornos nesta terça-feira, 3, e causou forte estresse nos ativos domésticos na volta do feriado de Dia dos Finados. A alta dos juros futuros perdeu fôlego ao longo da tarde, mas a estrutura da curva a termo seguiu inclinada, como reflexo de ruídos sobre propostas pouco ortodoxas que estariam sob análise do governo Lula 4.
Segundo agentes, a confirmação de que o líder do MDB do Senado, Eduardo Braga (AM), será o relator do Orçamento para 2027 - o que pode resultar em uma alíquota menor da CBS - e falas do presidente do PSD, Gilberto Kassab, pedindo a Lula para nomear um ministro da Fazenda que promova equilíbrio fiscal ajudaram a atenuar o avanço das taxas. O movimento, contudo, foi insuficiente para neutralizar a percepção de aumento de risco fiscal, deixada pela ausência de indicações de medidas de ajuste para as contas públicas e para a composição da equipe econômica.
Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2028 subiu de 14,483%, no ajuste de sexta-feira, a 14,565%. O DI para janeiro de 2029 avançou a 15,070%, vindo de 14,962% no ajuste, e o DI para janeiro de 2031 aumentou de 15,272% a 15,370%.
Nas máximas do dia, atingidas no final da manhã, o vértice de janeiro de 2031 chegou a saltar quase 40 pontos. Às incertezas sobre nomes da equipe econômica e o que esperar do lado fiscal, somaram-se notícias de que Lula teria um encontro com o economista André Lara Resende. Um dos criadores do Plano Real, Resende recentemente divulgou uma proposta polêmica e criticada por diversos colegas de estabelecer metas para a Selic.
Para fazer um ajuste fiscal via redução do serviço da dívida, Resende defende que o
Banco Central teria de manter o juro básico em um limite que seria a soma da meta de inflação, atualmente em 3%, com o crescimento potencial da economia, estimado em 2,5%.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, negou hoje que haja uma reunião marcada entre os dois e disse que a ideia de Resende é incipiente. Economistas ouvidos pela Broadcast também consideram pouco provável que a proposta seja implementada, mas, de qualquer forma, as discussões pressionaram a curva.
Estrategista-chefe de Macro e Dívida Pública da Warren Investimentos, Luis Felipe Vital avalia que os rumores sobre estabelecer uma meta para Selic compõem um quadro mais amplo de "vácuo" de sinalizações que tem elevado a aversão a risco.
"O mercado está aguardando que o governo dê alguma sinalização de política econômica a partir de 2027, principalmente na questão das contas públicas. O fato de estar acontecendo esse tipo de debate quer dizer que estamos distantes do momento em que vamos discutir estratégias de ajuste mais rápido nas contas públicas com maior seriedade", criticou.
Como consequência de um mercado operando "no vazio", com grandes expectativas de que haja qualquer anúncio e sem correspondência do governo, o mercado de juros futuros deve sofrer com níveis mais altos de taxas e maiores flutuações, ao mesmo tempo em que a liquidez e o apetite ao risco ficam muito prejudicados, acrescenta.
A piora do sentimento do mercado também foi observada no boletim Focus, que trouxe deterioração das expectativas dos analistas de 2026 até 2029. A mediana de projeções para a alta do IPCA avançou de 5,19% a 5,22% para este ano, e saltou de 4,34% a 4,76% no próximo. O consenso para a Selic terminal passou de 13,25% a 13,50% para 2026, e de 11,75% a 12,50% em 2027.
Em revisão publicada hoje, o economista do Santander Marco Antonio Caruso retirou a perspectiva de corte de 25 pontos-base na Selic para a reunião de amanhã do Comitê de Política Monetária (Copom) e passou a esperar manutenção nos atuais 13,75%. Em sua visão, pausar o ciclo de afrouxamento neste momento seria a forma mais confiável de preservar a possibilidade de novas reduções adiante.