
O avanço da pecuária de corte brasileira tem exigido dos produtores decisões cada vez mais criteriosas. Em um mercado competitivo, melhorar a eficiência produtiva e a rentabilidade dos rebanhos depende não apenas da utilização de ferramentas de avaliação genética, mas também da capacidade de integrar diferentes fontes de informação e compreender as particularidades de cada sistema de produção.
Nesse contexto, a parceria entre o criador e a assessoria técnica assume um papel fundamental. Mais do que interpretar números ou recomendar acasalamentos, o trabalho conjunto permite estabelecer objetivos de seleção, avaliar os animais sob diferentes perspectivas e desenvolver estratégias compatíveis com as necessidades produtivas e comerciais de cada propriedade.
Para o zootecnista Fábio Luiz Buranelo Toral, coordenador de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação do Programa Embrapa Geneplus, os sumários de avaliação genética são ferramentas essenciais, mas representam apenas parte das informações necessárias para a tomada de decisão. "Os sumários apresentam as Diferenças Esperadas na Progênie (DEPs), índices e acurácias referentes às características contempladas pelas avaliações genéticas de cada programa. Essas informações permitem comparar o mérito genético dos animais para características economicamente importantes, como crescimento, habilidade materna, reprodução e carcaça", explica Fabio Toral.
Entretanto, nem todas as características relevantes para a seleção estão necessariamente representadas nesses resultados. Aspectos relacionados à funcionalidade dos animais, como aprumos, linha de dorso e características raciais, também precisam ser considerados.
É justamente nesse ponto que a experiência do criador e o conhecimento da assessoria se complementam. O produtor acompanha diariamente seu rebanho, conhece as particularidades dos animais e acumula observações que podem contribuir para as decisões de seleção. O técnico, por sua vez, auxilia na interpretação e integração dessas informações com os resultados das avaliações genéticas e com os objetivos estabelecidos para o projeto.
Segundo ele, a engrenagem funciona em total sincronia. "A avaliação genética não substitui o olhar do criador, da mesma forma que a experiência de campo não dispensa o uso de informações objetivas. A qualidade das decisões depende da combinação dessas diferentes perspectivas", destaca Toral.
Melhoramento genético também é estratégia de negócio
Além de orientar a seleção, uma boa assessoria precisa conhecer o negócio de seu cliente. Isso envolve compreender o sistema de produção, os objetivos do criador, os custos envolvidos e o mercado ao qual os animais serão destinados.
As decisões de melhoramento devem estar associadas a objetivos econômicos claros. Uma característica geneticamente favorável não necessariamente terá o mesmo valor em diferentes propriedades. Seu impacto econômico depende das condições de produção e da forma como os resultados são aproveitados comercialmente.
Por isso, definir os objetivos de seleção exige compreender como as mudanças nas características dos animais podem afetar o resultado econômico da atividade. Cada sistema de produção possui particularidades que precisam ser consideradas na definição das estratégias de melhoramento.
Esse conhecimento também permite que o técnico contribua para as decisões comerciais do criador, ajudando a estabelecer estratégias coerentes com as características do rebanho e evitando que argumentos de venda ou escolhas de mercado sejam construídos sobre interpretações tecnicamente equivocadas.
Qualidade técnica não significa produzir animais iguais
Um projeto de melhoramento genético precisa despertar o interesse dos compradores. Para isso, deve contar com uma base técnica sólida, capaz de estabelecer padrões mínimos de qualidade para os animais ofertados.
A comunicação e o marketing têm papel importante nesse processo, apresentando os diferenciais do rebanho, os objetivos do programa de seleção e as informações que sustentam a qualidade dos animais.
Entretanto, atrair o comprador é apenas parte do desafio. Quando visita uma propriedade para adquirir reprodutores ou matrizes, cada cliente utiliza seus próprios critérios de escolha, considerando as necessidades de seu sistema de produção e suas preferências particulares.
Além das informações genéticas e produtivas, características como pelagem, tipo de chifre, pigmentação do prepúcio, conformação e outros aspectos visuais podem influenciar a decisão de compra. Como um mesmo criador pode atender clientes com demandas bastante distintas, não é adequado estabelecer um único padrão comercial de animal como se ele fosse capaz de atender a todos os compradores.
Diante desse cenário, o coordenador do Programa de Melhoramento Genético Embrapa Geneplus faz um alerta comercial. "Preservar a variabilidade entre os animais ofertados pode representar uma vantagem comercial importante. O desafio está em conciliar essa diversidade com critérios técnicos consistentes, de modo que os compradores encontrem alternativas compatíveis com suas preferências sem que isso comprometa a qualidade dos animais disponibilizados", pondera Fabio Toral. O objetivo, portanto, não é produzir animais iguais, mas oferecer diferentes opções dentro de um conjunto que atenda aos padrões de qualidade estabelecidos pelo projeto de melhoramento.
A importância de decisões compartilhadas
A construção de um rebanho competitivo é um processo contínuo, que exige acompanhamento, avaliação dos resultados e eventuais ajustes de estratégia.
Ferramentas como as avaliações genéticas, a genômica e os acasalamentos direcionados ampliam as possibilidades de seleção, mas sua utilização precisa estar alinhada aos objetivos do criador e às condições de produção.
Nesse processo, a assessoria técnica não substitui o produtor nas decisões. Seu papel é oferecer conhecimento, interpretar informações, identificar oportunidades e limitações e contribuir para que as escolhas sejam fundamentadas em critérios consistentes. Da mesma forma, o conhecimento acumulado pelo criador sobre seus animais, clientes e mercado é indispensável para orientar o trabalho de melhoramento.
"Mais do que selecionar animais com boas DEPs, desenvolver um projeto de melhoramento significa integrar informações genéticas, características funcionais, experiência de campo e visão comercial", finaliza Fabio Toral, reforçando que é dessa parceria entre produtor e assessoria que surgem decisões capazes de promover o progresso genético, fortalecer a identidade do rebanho e ampliar suas possibilidades de inserção no mercado.
Informações: Assessoria de Imprensa