
Aumentar a produção de bezerros por hectare sem comprometer o desempenho reprodutivo das matrizes é um dos desafios da pecuária de cria brasileira. A procura por esse equilíbrio envolve planejamento forrageiro, nutrição, genética, sanidade e gestão econômica, temas que estiveram em discussão no VII Encontro de Pecuária Intensiva – Foco: Cria, realizado em 2 de outubro, na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ/USP), em Piracicaba (SP).
As discussões ocorreram em um contexto importante da composição do abate brasileiro. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2025 foram abatidos 42,95 milhões de bovinos sob algum tipo de inspeção sanitária, volume recorde e 8,2% superior ao registrado em 2024.
No primeiro semestre de 2026, a participação de fêmeas no abate de bovinos foi de 49,5%, acrescendo 2,7 pontos percentuais na comparação com o mesmo período de 2025, caracterizando um movimento relevante para a análise do ciclo pecuário e das perspectivas de oferta de bovinos de reposição.
Com a participação do time da Scot Consultoria, o encontro reuniu estudantes, pecuaristas, pesquisadores e profissionais do setor para debater os desafios atuais da cria e as perspectivas para os próximos anos. A programação contou com especialistas de instituições de ensino e pesquisa, consultorias e empresas ligadas à cadeia produtiva agropecuária.
Planejamento forrageiro e desempenho reprodutivo
Um dos pontos centrais abordados durante o encontro foi a relação entre taxa de lotação e planejamento forrageiro. A quantidade de bovinos mantidos nas propriedades precisa estar alinhada à disponibilidade e à qualidade das pastagens durante todo o ano, considerando a estacionalidade da produção de forragem.
O aumento da lotação é uma estratégia que permite ampliar a produtividade, no entanto seu sucesso depende do nível de intensificação. Em pastagens sem adubação, a margem para elevar a carga é pequena. Com correção de solo, adubação, integração ou suplementação estratégica, o sistema suporta mais bovinos por hectare, mas com custos e riscos que precisam ser analisados. Caso contrário, a maior pressão sobre as pastagens pode comprometer a saúde do sistema para suportar o próximo ciclo produtivo.
Dentre as demais estratégias discutidas estiveram o diferimento de pastagens, isso é, a conservação de parte da forragem produzida durante as águas para utilização na seca, e o ajuste da suplementação alimentar conforme as exigências nutricionais do rebanho.
A nutrição das matrizes também recebeu atenção em diferentes momentos do encontro, sobretudo durante a gestação e a lactação. O acompanhamento do escore de condição corporal, associado a estratégias de manejo e suplementação, contribui para atender às exigências nutricionais das vacas e favorecer seu retorno à atividade reprodutiva após o parto, sem comprometer o desenvolvimento da progênie.
Mais do que estudar as possíveis estratégias e analisar sua viabilidade, o desafio está em conciliar indicadores como taxa de prenhez, taxa de desmama, desempenho dos bezerros e produtividade por área. A análise conjunta desses resultados permite avaliar se as estratégias adotadas estão contribuindo para o desempenho técnico e econômico da propriedade.
Mercado de reposição e perspectivas para a atividade
As discussões também abordaram os impactos do ciclo pecuário e das transformações tecnológicas sobre a atividade de cria. A dinâmica de abate de fêmeas, a oferta de bovinos de reposição e as relações de troca entre categorias influenciam as decisões dos produtores e podem modificar a rentabilidade dos sistemas ao longo do tempo.
Embora as condições de mercado sejam determinantes para o resultado econômico, dentro da porteira é possível amenizar os impactos do mercado através de planejamento e o acompanhamento dos indicadores produtivos.
A evolução das tecnologias aplicadas à genética, à nutrição, à identificação e ao manejo dos bovinos também amplia as ferramentas disponíveis para a gestão da cria. Entretanto, a adoção dessas soluções precisa considerar as características de cada propriedade, os recursos disponíveis e o retorno esperado dos investimentos.
Ao longo do encontro, ficou evidente a importância de compreender a atividade de cria como um sistema no qual decisões relacionadas às pastagens, à reprodução, à nutrição e à sanidade estão interligadas.
Para a pecuária brasileira, o avanço da produtividade passa pelo conhecimento de cada realidade, pela definição de metas e pela avaliação contínua dos resultados. Em uma atividade diretamente influenciada pelo clima, pelo mercado e pelo ciclo biológico dos bovinos, planejar a produção e ajustar as estratégias de manejo são caminhos para ampliar a eficiência e a competitividade da cria.
Informações: Scot Consultoria