O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aprovou financiamento de R$ 250 milhões, com recursos do Fundo Clima, para a Belterra implantar 4 mil hectares de sistemas agroflorestais (SAFs) em áreas degradadas da Amazônia. O projeto terá investimento total de R$ 302 milhões e será desenvolvido principalmente no Pará, com atuação também em Mato Grosso, combinando recuperação ambiental, produção sustentável de cacau e geração de renda no campo.
A iniciativa será executada pela Restaura Amazônia SPE S.A., empresa do Grupo Belterra, e prevê o plantio de aproximadamente 4,72 milhões de mudas, incluindo espécies florestais nativas da Amazônia. Com conclusão prevista para 2031, o projeto estima remover cerca de 337 mil toneladas de dióxido de carbono equivalente (CO₂e), além de recuperar áreas para fins ambientais e produtivos.
Os investimentos estarão concentrados no chamado Arco da Restauração da Amazônia, região que reúne áreas historicamente afetadas pelo desmatamento e pela conversão da floresta em pastagens e atividades agropecuárias de baixa produtividade. Entre as regiões previstas para a implantação estão a Transamazônica e Carajás, no Pará, e Alta Floresta, no norte de Mato Grosso.
A implantação deverá elevar de 360 para aproximadamente 750 o número de postos de trabalho diretos e de prestadores de serviços vinculados às operações, chegando a cerca de 960 após a conclusão do projeto. As oportunidades estarão relacionadas ao preparo do solo, produção de mudas, plantio, manejo, colheita e processamento do cacau.
“Estamos financiando uma transformação importante na Amazônia: áreas degradadas, que hoje têm baixa produtividade, vão se tornar florestas produtivas, gerando emprego, renda e ajudando a enfrentar as mudanças climáticas. Com R$ 250 milhões do Fundo Clima, vamos apoiar a recuperação de 4 mil hectares e fortalecer a produção sustentável de cacau. É um investimento que mostra como o Brasil pode conciliar preservação ambiental, desenvolvimento econômico e expansão da produção agrícola, sem precisar avançar sobre a floresta”, afirma o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante.
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Projeto deverá elevar para 750 o número de postos de trabalho diretos
Foto: Agência Brasil/Tomaz Silva
Recuperação ambiental com produção de alimentos – O projeto utilizará sistemas agroflorestais, modelo de produção que combina árvores nativas com culturas agrícolas em uma mesma área. O cacau será a principal atividade comercial, cultivado em conjunto com espécies como açaí, castanheira, andiroba, ingá, ipê, jatobá e paricá, além de culturas de ciclo mais curto, como banana e mandioca.
Ao todo, estão previstas 25 espécies nativas, com diferentes funções ambientais e produtivas. Enquanto algumas contribuem para recuperar a fertilidade do solo, oferecer sombra e proteger a biodiversidade, outras permitem diversificar a produção e ampliar as oportunidades de renda dos agricultores.
O modelo busca recuperar terras utilizadas anteriormente como pastagens degradadas ou lavouras de baixa produtividade, sem exigir que o proprietário abandone a atividade econômica. A proposta é substituir sistemas pouco produtivos por áreas que combinem cobertura arbórea, produção agrícola e maior capacidade de armazenamento de carbono.
A expectativa é que, com a implantação dos sistemas agroflorestais, a produção de cacau possa superar 12 mil toneladas por ano. O aumento da oferta de matéria-prima nacional poderá contribuir para reduzir a dependência brasileira de importações e fortalecer a cadeia produtiva do chocolate.
“O projeto mostra que a restauração florestal pode ser também uma oportunidade concreta de geração de renda para os produtores rurais. Estamos apoiando um modelo que combina árvores nativas com a produção de cacau e outras culturas, recuperando a fertilidade do solo e tornando a atividade agrícola mais sustentável. O produtor ganha assistência técnica, acesso a mercados e novas oportunidades de renda”, afirma a diretora Socioambiental do BNDES, Tereza Campello.
O projeto também prevê investimentos na ampliação de viveiros, na instalação de sistemas de irrigação, em máquinas e equipamentos agrícolas e em estruturas de fermentação e secagem do cacau. A irrigação será utilizada em áreas específicas para reduzir os impactos dos períodos de estiagem e aumentar a produtividade.
Geração de renda para produtores rurais – Um dos diferenciais do projeto é o modelo de parceria com proprietários rurais, especialmente aqueles que possuem áreas degradadas ou de baixa produtividade. A Belterra assume os investimentos iniciais de implantação, incluindo mudas, insumos, assistência técnica e mão de obra, sem exigir aporte financeiro do agricultor parceiro.
Os contratos poderão seguir modelos de arrendamento ou parceria rural. No segundo caso, os produtores recebem remuneração fixa durante os três primeiros anos, período anterior ao início da produção comercial de cacau. Após o começo das colheitas, passam a receber uma parcela da produção, participando dos resultados da atividade.
Além da renda, os produtores terão acesso à assistência técnica, capacitação em práticas agroflorestais e apoio para comercialização. O projeto prevê treinamentos periódicos, aquisição de sementes e mudas de associações locais e iniciativas de regularização documental e certificação dos produtores.
A Belterra mantém contrato comercial de longo prazo com empresa global da cadeia produtiva do cacau e chocolate para a compra da produção de cacau do projeto. O acordo, com prazo inicial de 15 anos, contribui para dar previsibilidade à comercialização e reduzir a exposição dos produtores e da empresa às oscilações do mercado.

Além da renda, os produtores terão acesso à assistência técnica, capacitação e apoio
Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
“O apoio do BNDES nos permite dar um novo salto de escala e reforça a estratégia de crescimento da Belterra. Estamos construindo uma nova base produtiva para o cacau brasileiro, em parceria com a indústria do chocolate e com produtores da Amazônia e da Mata Atlântica, transformando áreas degradadas em sistemas agroflorestais que geram renda, trabalho e floresta em pé. Cada hectare recuperado é um hectare que volta a produzir, a gerar renda e a abrigar biodiversidade”, afirma Valmir Ortega, CEO da Belterra Agroflorestal.
Resultados ambientais e climáticos – Além da recuperação de 4 mil hectares de áreas degradadas, a iniciativa deverá contribuir para melhorar a qualidade do solo, aumentar a biodiversidade e ampliar a cobertura vegetal da região. O plantio de espécies nativas em conjunto com culturas agrícolas favorece a formação de ambientes mais diversos e resistentes aos efeitos das mudanças climáticas.
O projeto tem previsão de remoção anual de aproximadamente 337 mil toneladas de CO₂ equivalente até 2031, segundo estimativas utilizadas na análise do financiamento pelo BNDES. A captura ocorre pelo crescimento das árvores e pelo armazenamento de carbono na vegetação.
A Belterra também pretende obter certificação para a geração de créditos de carbono associados às áreas recuperadas. Essa atividade poderá representar uma fonte complementar de receita, condicionada à validação dos projetos, à certificação das remoções e às condições do mercado.
A operação será financiada na modalidade Florestas Nativas e Recursos Hídricos do Fundo Clima, vinculado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e operado pelo BNDES. O financiamento tem prazo total previsto de 15 anos, incluindo cinco anos de carência, compatível com o período necessário para implantação e maturação dos sistemas agroflorestais.
Esta é a segunda operação do Fundo Clima com o Grupo Belterra. Em 2025, o BNDES contratou financiamento de R$ 100 milhões para apoiar a implantação de 2.750 hectares de sistemas agroflorestais em áreas degradadas do Pará, Bahia, Mato Grosso e Rondônia.
Arco da Restauração – O projeto da Belterra integra o Arco da Restauração, iniciativa do governo federal conduzida pelo BNDES em parceria com o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), voltada à recuperação da região historicamente mais desmatada da Amazônia. Conhecido como Arco do Desmatamento, esse território se estende do Acre ao Pará e concentra cerca de 75% da destruição da floresta amazônica.
A estratégia busca transformar áreas degradadas em florestas, recuperar a vegetação nativa e desenvolver sistemas produtivos sustentáveis, contribuindo para conter o avanço do desmatamento, recuperar a biodiversidade e gerar emprego e renda para as populações locais.
A meta é restaurar 6 milhões de hectares até 2030 e chegar a 24 milhões de hectares até 2050, combinando recursos públicos e privados, nacionais e internacionais. Até o momento, já foram mobilizados R$ 3,2 bilhões pelo BNDES, Fundo Amazônia, empresas e demais parceiros, destinados a projetos de restauração florestal, implantação de sistemas agroflorestais e desenvolvimento de negócios sustentáveis associados à floresta.
BNDES Florestas – A operação com a Belterra e o Arco da Restauração fazem parte da estratégia do BNDES para impulso do setor florestal brasileiro, reunida no BNDES Florestas. A atuação combina diferentes instrumentos para apoiar restauração ecológica, sistemas agroflorestais, conservação e atividades produtivas associadas à floresta, com recursos reembolsáveis, não reembolsáveis e investimentos.
O BNDES Florestas já mobilizou R$ 14,6 bilhões no Brasil, sendo R$ 8,7 bilhões em financiamentos e R$ 5,9 bilhões em participações e investimentos. Esse conjunto está associado ao plantio equivalente a 354 milhões de árvores, à geração de 89 mil empregos verdes e à captura de 68 milhões de toneladas de carbono.
A estratégia busca estruturar uma nova economia da floresta, capaz de recuperar áreas degradadas e, ao mesmo tempo, ampliar a produção sustentável, gerar trabalho e renda e fortalecer cadeias produtivas associadas à floresta. O modelo articula desde redes de sementes, viveiros e capacitação até crédito de longo prazo e capital para que os projetos possam ganhar escala.
Sobre a Belterra – Fundada em 2020, a Belterra S.A. é uma empresa brasileira especializada em restauração florestal produtiva, com atuação na implantação e gestão de sistemas agroflorestais em áreas degradadas. A companhia atua em sete estados brasileiros e desenvolve projetos que integram produção agrícola sustentável, recuperação ambiental e geração de créditos de carbono. Em 2026, concluiu uma rodada de investimentos com a entrada de investidores institucionais, entre eles Bold.t Capital, Ecosia, MOV Investimentos e Rise Investments. Seu modelo de negócios inclui parcerias com produtores rurais e acordos comerciais com empresas como empresas globais processadoras cacau e chocolate, com foco na estruturação de cadeias produtivas sustentáveis, especialmente a do cacau.

BNDES aprova R$ 250 milhões do Fundo Clima para Belterra recuperar 4 mil hectares na Amazônia