Estudo mapeia áreas no Brasil mais vulneráveis à poluição difusa gerada pela agropecuária

O estudo apresenta um retrato de áreas com maior potencial de contaminação por resíduos de culturas agrícolas e criações animais

13/10/2026 às 13:00 atualizado por Redação - SBA | Siga-nos no Google News
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Um estudo realizado por pesquisadores da Embrapa Meio Ambiente (SP) e da Embrapa Solos (RJ) mapeou e classificou os municípios brasileiros mais suscetíveis à poluição difusa proveniente das atividades agropecuárias. O objetivo foi identificar as áreas rurais que demandam maior atenção quanto ao monitoramento da qualidade da água. As análises também levaram em consideração a vulnerabilidade de fontes hídricas em relação às mudanças climáticas. 

O trabalho, conduzido por Rachel Prado, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente, compila indicadores relacionados às principais fontes de poluição difusa da agropecuária, com ênfase na contaminação por nitrogênio (N) e fósforo (P).  

O pesquisador da Embrapa Solos Alexandre Ortega explica que a poluição dos cursos d'água ocorre por duas principais vias: fontes pontuais e fontes difusas. As fontes pontuais, como esgotos urbanos e efluentes industriais, são relativamente fáceis de identificar e controlar. “Já as fontes difusas apresentam comportamento muito mais complexo. Elas resultam do escoamento superficial das águas da chuva, que transportam resíduos provenientes das áreas rurais, como fertilizantes, defensivos agrícolas, sedimentos e nutrientes, até rios, córregos e reservatórios”, esclarece Ortega. 

O trabalho tem como base cinco indicadores de fontes de poluição difusa da agropecuária: entrega de fertilizantes por cultura (nitrogênio, potássio e fósforo), número de cabeças animais, área com fertirrigação da cana-de-açúcar, balanço hídrico quantitativo por microbacias e erodibilidade do solo à erosão hídrica.

 

 

Fertirrigação da cana-de-açúcar com vinhaça. Fonte: Banco de imagens da Embrapa
Fertirrigação da cana-de-açúcar com vinhaça (Banco de imagens da Embrapa)

O monitoramento da qualidade da água no Brasil concentra-se historicamente nas áreas urbanas; assim, prioriza o controle da poluição pontual oriunda de esgotos, considerando seus impactos sobre a saúde pública. Ampliar esse monitoramento para as áreas rurais é fundamental para garantir a segurança hídrica e preservar os ecossistemas aquáticos. Nesse sentido, o mapeamento resultante do estudo pode orientar políticas públicas de controle de fontes difusas de poluição. 


Regiões mais críticas

Os resultados do trabalho mostram que as áreas mais críticas se concentram principalmente em municípios dos estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás, além da região conhecida como Matopiba — considerada a principal fronteira agrícola em expansão no País, abrange partes do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Também foram identificados, de forma mais localizada, municípios dos estados do Paraná e de São Paulo com elevada prioridade para ações de monitoramento. 

Segundo o estudo, essas regiões apresentam combinação de intensa atividade agropecuária, elevado uso de insumos agrícolas e condições ambientais que favorecem o transporte de nutrientes e sedimentos para os cursos d'água, cenário que pode ser agravado por eventos climáticos extremos.

 

Cruzamento de indicadores

Rachel Prado explica que, para identificar as áreas prioritárias, a equipe reuniu e analisou grandes bases de dados nacionais já existentes, utilizando Sistemas de Informação Geográfica (SIGs). Entre os indicadores considerados estão a quantidade de fertilizantes nitrogenados, fosfatados e potássicos aplicada por cultura e município (entrega de fertilizantes); a área plantada das principais culturas agrícolas; o efetivo de rebanhos; a área de cana-de-açúcar submetida à fertirrigação; o balanço hídrico quantitativo das microbacias e a erodibilidade dos solos à erosão hídrica.

Cada variável recebeu uma classificação de um a cinco em relação à necessidade de monitoramento, sendo 1 = muito baixa prioridade e 5 = muito alta prioridade. Posteriormente, os mapas temáticos foram integrados em um ambiente de geoprocessamento para a elaboração dos dois mapas síntese. 

O primeiro (figura acima) identifica os municípios prioritários para o monitoramento da qualidade da água em função da presença de fontes difusas de poluição relacionadas à agropecuária. O segundo (abaixo) incorpora, além desses fatores, indicadores de vulnerabilidade às mudanças climáticas, considerando o balanço hídrico quantitativo e a erodibilidade do solo à erosão hídrica por município.

Mapa síntese 2: vulnerabilidade às mudanças climáticas, considerando o balanço hídrico quantitativo e a erodibilidade do solo à erosão hídrica por município.

Recomendações para a redução de fontes difusas de poluição no meio rural

Grande parte dos nutrientes aplicados na lavoura que não são aproveitados pelas plantas acaba se perdendo. Esse excedente é carregado pelo escoamento superficial durante as chuvas ou se infiltra no solo até atingir o lençol freático. Pesquisas apontam que cerca de metade do nitrogênio utilizado é perdida para o ambiente, gerando prejuízos econômicos e impactos ecológicos. Em eventos de chuvas intensas, o transporte desses elementos para os corpos d'água compromete drasticamente a qualidade dos recursos hídricos, especialmente em bacias com solo exposto, manejo inadequado e processos erosivos acelerados. 

O trabalho dá ênfase à contaminação das fontes de água por nitrogênio (N) e fósforo (P), dois elementos que compõem a grande maioria dos insumos agrícolas. Alerta também para o crescimento do consumo de fertilizantes no País: segundo a Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA), o volume entregue aos produtores aumentou de 14,7 milhões de toneladas em 1998 para 40,6 milhões de toneladas em 2020. Em 2024, esse total chegou a 45,6 milhões de toneladas, enquanto projeções indicam que a demanda poderá atingir cerca de 65 milhões de toneladas até 2050. 

 Para mitigar os riscos de contaminação da água, o estudo reforça a importância de técnicas de conservação do solo;  uso e manejo adequado de fertilizantes; e manutenção de áreas com vegetação nativa em zonas ripárias. A adoção das medidas recomendadas ajuda a evitar o desperdício de insumos valiosos na lavoura, promove a proteção dos cursos d’água no meio rural e reforça a segurança hídrica do país.

Subsídios para políticas públicas

O trabalho foi desenvolvido no âmbito de um projeto liderado pela Embrapa que busca aplicar métricas de sustentabilidade na agropecuária brasileira para subsidiar órgãos estaduais e municipais relacionados às áreas de agricultura, meio ambiente e recursos hídricos. Conhecido como IS-Agro, ele visa também alimentar bases de dados internacionais organizadas pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O objetivo específico deste trabalho é fornecer informações técnicas que orientem o monitoramento da qualidade da água em áreas rurais, a fim de apoiar a tomada de decisão e a elaboração e implantação de políticas públicas para prevenir e reduzir a poluição difusa dos corpos hídricos. 

Embora o Brasil detenha uma das maiores reservas de água doce do planeta, a disponibilidade desse recurso tem sido cada vez mais pressionada por fatores como alterações no regime de chuvas, crescimento da demanda hídrica, concentração populacional, limitações na gestão dos recursos hídricos e efeitos das mudanças climáticas. Além da redução na quantidade de água, a perda de sua qualidade compromete o abastecimento humano, a produção agrícola, a indústria e a conservação dos ecossistemas aquáticos. 

O estudo Mapeamento e priorização de municípios brasileiros quanto às fontes de poluição difusa da água advindas da agropecuária e vulnerabilidade às mudanças climáticas está disponível integralmente aqui. Os autores são Rachel Bardy Prado, Pedro Gerhard, Robson Barizon, Gustavo Bayma e Sandra Furlan Nogueira, da Embrapa Meio Ambiente, e Alexandre Ortega Gonçalves da Embrapa Solos. 

Informações: Embrapa Meio Ambiente - Cristina Tordin ((MTb 28.499/SP))


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