São Paulo, 6 - O atraso no início do plantio de soja em Mato Grosso ainda não altera a estimativa de produção da safra 2026/27, mantida em 48,88 milhões de toneladas pelo Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea). Em relatório divulgado nesta segunda-feira, 5, o instituto atribuiu o ritmo mais lento à irregularidade das primeiras chuvas e à cautela dos produtores em semear sem umidade adequada no solo. A colheita projetada é cerca de 5,2% inferior às 51,56 milhões de toneladas da temporada anterior.
Segundo o Imea, a semeadura está atrasada em relação às últimas safras em grande parte das regiões do Estado. Os produtores procuram reduzir o risco de que uma interrupção das chuvas após o plantio comprometa o estabelecimento das lavouras. Como os trabalhos ainda estão em fase inicial, porém, o instituto manteve também as previsões de área, em 13,05 milhões de hectares, e de produtividade, em 62,44 sacas por hectare. Os números representam, respectivamente, avanço anual de 0,25% e queda de 5,43%.
Mais do que o atraso observado até agora, o comportamento do clima nos próximos meses será determinante para o rendimento, conforme o relatório. A atenção se concentra em novembro e dezembro, quando o desenvolvimento das lavouras poderá ocorrer sob temperaturas mais elevadas e chuvas mais irregulares, com influência do El Niño.
O instituto explica que o calor excessivo aumenta a necessidade de água das plantas e pode intensificar o estresse das lavouras quando coincide com baixa disponibilidade de umidade. Períodos sem chuva, sobretudo durante o florescimento e a formação de vagens, também poderão limitar a produção. O avanço do plantio e as condições das primeiras áreas semeadas serão acompanhados para avaliar a necessidade de ajustes nas estimativas.
No mercado, o processamento industrial continua a absorver parte da oferta recorde de 2025/26. Após elevar a previsão de esmagamento no relatório anterior, o Imea manteve o consumo das indústrias mato-grossenses em 13,66 milhões de toneladas para essa temporada, alta de 5% na comparação anual. Para 2026/27, o volume segue estimado em 13,81 milhões de toneladas, avanço de 1,10%, sustentado pela capacidade instalada e pela demanda dos segmentos de biocombustíveis e alimentação animal.
As exportações da próxima safra foram mantidas em 30,51 milhões de toneladas, queda de 4,98% ante 2025/26, enquanto os envios a outros Estados devem recuar 15,44%, para 4,82 milhões de toneladas. A demanda total está projetada em 49,14 milhões de toneladas, diante de uma oferta de 49,26 milhões de toneladas, que inclui os estoques iniciais.
Com isso, o estoque final de 2026/27 permanece estimado em 120 mil toneladas, redução de 68,42% em relação às 380 mil toneladas previstas para 2025/26. Na avaliação do Imea, o baixo volume de passagem deixa a distribuição da soja entre indústrias locais, compradores de outros Estados e exportadores mais sensível a eventuais mudanças no potencial produtivo.
Milho
O milho de Mato Grosso deve ficar mais dentro do próprio Estado do que seguir para o exterior na safra 2026/27. Pelas contas do Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea), o consumo interno deve chegar a 27,09 milhões de toneladas no ciclo, alta de 16,20% ante 2025/26 e 9,59 milhões de toneladas acima das exportações, projetadas em 17,50 milhões de toneladas.
Na série do balanço, que começa em 2022/23, será a primeira vez que o consumo no Estado ultrapassará os embarques. No ciclo 2022/23, Mato Grosso consumiu 15,08 milhões de toneladas e exportou 29,98 milhões de toneladas. Em 2025/26, as duas linhas estão próximas: 23,31 milhões de toneladas para o consumo interno e 24,10 milhões de toneladas para as exportações. Para o Imea, a continuidade da competitividade do milho na alimentação animal mantém o consumo interno em trajetória de crescimento.
As exportações devem recuar 27,39% em 2026/27, de 24,10 milhões para 17,50 milhões de toneladas. O fluxo interestadual, que é o milho que sai de Mato Grosso para consumo em outros Estados, também deve cair: 9,50 milhões de toneladas, queda de 13,64% ante as 11,00 milhões de toneladas de 2025/26. A demanda total é estimada em 54,09 milhões de toneladas, 7,40% menos.
No ciclo atual, que vai de julho a junho, o ritmo dos embarques é o ponto de atenção. O Imea afirma que as exportações no início do período estão abaixo das registradas na mesma etapa da temporada passada, diante da menor competitividade do milho mato-grossense no mercado internacional. Como parte relevante do escoamento ainda está pela frente, uma retomada pode levar os embarques aos 24,10 milhões de toneladas projetados.
Do lado da produção, o instituto manteve as estimativas para 2026/27: área de 7,48 milhões de hectares (alta de 0,59%), produtividade de 119,64 sacas por hectare (queda de 8,05%) e produção de 53,68 milhões de toneladas, recuo de 7,50% ante os 58,04 milhões de toneladas de 2025/26. A área segue sustentada, segundo o Imea, pela expectativa de ampliação da demanda doméstica, que tende a intensificar a disputa pelo cereal no mercado estadual e favorecer a sustentação dos preços. Somada a um estoque inicial de 0,60 milhão de toneladas, a oferta total deve chegar a 54,29 milhões de toneladas, 8,01% abaixo da de 2025/26.
Com consumo maior e oferta menor, deve sobrar pouco milho no fim do ciclo. O estoque final de 2026/27 foi reduzido para 199,93 mil toneladas, queda de 29,87% frente ao relatório anterior e de 66,79% na comparação com 2025/26. O volume equivaleria a menos de dois dias da demanda total estimada para a safra. Em 2025/26, os estoques finais foram ajustados para 601,95 mil toneladas, recuo de 6,61% no mês e de 38,24% sobre a safra anterior, por causa da revisão positiva no consumo interno, que subiu 0,18% no mês e 15,10% ante o ciclo anterior. O Imea atribui a alta ao maior uso do cereal na formulação de ração animal, favorecido pela competitividade frente a outros insumos.
A produtividade é estimada em 119,64 sacas por hectare e considera os riscos de precipitação e temperatura, da janela de semeadura e do El Niño. A soja 2026/27, que antecede o milho segunda safra, está em fase inicial de semeadura, e o ritmo do plantio, somado ao clima, vai definir qual parcela do milho poderá ser implantada dentro da janela considerada ideal. Para o Imea, "neste momento, ainda não há elementos suficientes a campo que justifiquem uma revisão do cenário inicialmente projetado". O instituto afirma que os próximos meses devem dar mais definição ao quadro, à medida que a semeadura e o desenvolvimento da soja avancem.
Algodão
Os produtores de algodão de Mato Grosso devem ampliar a área cultivada na safra 2026/27, estimulados por preços mais atrativos da pluma, mas a expectativa de menor produtividade limita a produção. O Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea) projeta plantio de 1,43 milhão de hectares, aumento de 3,84% ante 2025/26, e produção de 2,73 milhões de toneladas de pluma, queda de 2,42%.
A expansão deve se concentrar no algodão de segunda safra, cuja área foi estimada em 1,29 milhão de hectares, avanço de 4,43%. Para a primeira safra, a projeção é de 138,71 mil hectares, recuo de 1,36%. Segundo o Imea, o levantamento junto aos cotonicultores identificou intenção de aumentar o plantio, mas a decisão final dependerá dos preços, do andamento da soja e das condições climáticas na semeadura.
A produtividade de algodão em caroço foi projetada em 310,39 arrobas por hectare, 6,01% abaixo do recorde de 2025/26. A estimativa considera um cenário climático menos favorável. Conforme o instituto, a possível atuação do El Niño pode tornar as chuvas mais irregulares e afetar tanto o desenvolvimento das lavouras quanto o calendário de implantação.
Eventuais atrasos na colheita da soja também poderão adiar o plantio do algodão de segunda safra, expondo uma parcela maior das lavouras à falta de água em fases importantes do ciclo. Nesse cenário, a produção de algodão em caroço foi estimada em 6,65 milhões de toneladas, queda anual de 2,41%. Ainda assim, seria a terceira maior da série histórica do Imea.
O relatório também consolidou os resultados de 2025/26 após a conclusão da colheita. A produtividade alcançou 330,25 arrobas por hectare, alta de 2,13% ante a estimativa de setembro e de 4,80% sobre a temporada anterior. As chuvas favoreceram a formação e o enchimento das maçãs, mas, em áreas com capulhos já abertos, prejudicaram a coloração e o brilho da pluma em algumas regiões.
Mesmo com o rendimento recorde, a produção de algodão em caroço ficou em 6,81 milhões de toneladas, 6,92% abaixo de 2024/25, porque a área cultivada diminuiu 11,18%, para 1,37 milhão de hectares. A produção de pluma foi estimada em 2,80 milhões de toneladas, redução anual de 6,75%.
Para 2026/27, o Imea prevê que as exportações de pluma cresçam 2,74%, para 2,14 milhões de toneladas. O consumo das fiadoras de Mato Grosso deve avançar 11,47%, para 44,95 mil toneladas, enquanto os envios a outros Estados tendem a recuar 0,30%, para 604,61 mil toneladas. A demanda total foi estimada em 2,79 milhões de toneladas, aumento de 2,19%.
Com maior demanda e menor produção, os estoques finais devem cair 7,19%, para 850,39 mil toneladas. O volume, contudo, inclui 830,58 mil toneladas que, segundo a projeção do instituto, já estarão vendidas, mas ainda não terão sido embarcadas ao término do ciclo comercial. A parcela disponível para negociação foi estimada em 19,80 mil toneladas.