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Em Campinas-SP, praça de referência para a cotação do milho, a saca estava em R$69,27 em 28/9, alta de 1,0% em relação a 30 dias e de 7,2% frente ao mesmo período de 2025 (figura 1). Segundo a Scot Consultoria, o movimento recente, porém, não apaga um ano de preços baixos: de janeiro a setembro, a média de 2026 ficou em R$67,08 por saca, 8,1% abaixo da de 2025. Descontada a inflação, essa média está 8,4% abaixo da média histórica desde 2002.
Figura 1.
Cotação da saca de milho em Campinas-SP.

*5A = 5 anos (2021 a 2025) **até 28/9
No curto prazo, o mercado está abastecido. A safra 2025/26 está estimada em 144,0 milhões de toneladas (Conab), recorde, e o estoque de passagem em 15,7 milhões de toneladas, o maior dos últimos sete ciclos, o que limita altas mais fortes.
Ainda assim, a sazonalidade aponta para cima até o começo de 2027. Em valores reais, a cotação do milho em Campinas costuma atingir o piso em julho, com a colheita da safrinha, e subir até janeiro, na entressafra (figura 2). De setembro a janeiro, a alta média é de 7,0%.
Figura 2.
Cotação média mensal da saca de milho em Campinas-SP, deflacionado pelo IGP-DI, desde 2002.

Para 2027, três fatores apontam para uma cotação mais sustentada.
O primeiro é o balanço entre oferta e demanda. O consumo interno está em forte expansão, puxado pelas usinas de etanol de milho e pela produção de proteína animal: cresceu 7,8% em 2025/26 (Conab). Para 2026/27, o USDA projeta a safra brasileira em 139,0 milhões de toneladas, abaixo dos 141,0 milhões que o órgão estima para 2025/26, e o consumo 3,6% maior, o que reduziria os estoques finais em 28,4%. No mundo, os estoques devem cair 9,7%, o que estimula cotações mais sustentadas. Por exemplo, o preço médio projetado para o milho nos Estados Unidos subiu para US$4,80 por bushel durante o ano que vem, 15,7% acima do atual.
O segundo é o clima, que pode deixar esse quadro mais apertado. A NOAA, agência de clima dos Estados Unidos, estima em 98,0% a chance de um El Niño muito forte entre outubro e dezembro, justamente durante a semeadura da soja, e em 97,0% a chance de o fenômeno estar presente entre fevereiro e abril, na semeadura da safrinha. Em anos assim, as chuvas costumam ser irregulares no Centro-Oeste, o que pode atrasar a soja e empurrar a segunda safra para o fim da janela ideal.
O terceiro é a área. Com o preço abaixo da média histórica, o estímulo para aumentar o cultivo de milho é menor. Com o risco de El Niño, o sorgo tende a ser uma opção melhor em 2026/27, e muitos produtores devem fazer essa escolha antes mesmo de saber se a soja vai atrasar.
Estoques menores, risco climático sobre a safrinha e áreas de milho indo para o sorgo: a combinação indica cotação milho mais firme em 2027.
Para o confinador, porém, mais importante que a cotação do milho é quanto ele custa em arrobas, conta que pesa na margem da engorda. Em São Paulo, a arroba do boi gordo estava cotada em R$344,50 em 22/9, à vista, alta de 14,6% em 12 meses, e comprava 4,95 sacas de milho, 32,1% acima da média desde 2005. Em Mato Grosso, onde a cotação do milho é menor, a relação chegou a 6,40 sacas por arroba, 16,8% acima da média do estado (figura 3). Na média de 2026, a relação é a segunda melhor da série em São Paulo e a quinta em Mato Grosso.
Figura 3.
Sacas de milho compradas com a venda de uma arroba de boi gordo, em São Paulo e em Mato Grosso, média anual.

*até 22/9
O contraste com o último ciclo de alta da pecuária, em 2020/21, é grande. Em 2021, com o milho em Campinas em R$95,04 por saca, em média, a arroba comprava apenas 3,18 sacas em São Paulo e 3,88 em Mato Grosso, abaixo das médias dos dois estados.
Além da reposição valorizada, o confinador tinha de lidar com uma alimentação também cara. Hoje, o custo mais tranquilo da alimentação tem ajudado a sustentar a margem da engorda.
E há espaço para o milho subir sem mudar esse quadro. Se o cereal repetir a alta sazonal de 7,0% até janeiro, com a arroba estável, a relação cairia para 4,63 sacas em São Paulo e 5,98 em Mato Grosso, ainda acima das médias.
O ciclo pecuário ajuda a sustentar esse cenário. Depois de um período de descarte intenso de fêmeas, a pecuária dá sinais de retenção. Com mais vacas mantidas na cria, a oferta de bovinos para abate tende a ficar menor em 2027, o que sustenta a cotação da arroba. A demanda externa também deve ficar firme.
Nos Estados Unidos, por exemplo, segundo importador de carne bovina brasileira em 2026, o USDA projeta que, em 2027, a produção de carne bovina dos Estados Unidos fique 4,5% abaixo da de 2025 e as importações, 12,3% acima, o que deve manter eles como um grande comprador da carne brasileira.
Com o boi valorizado, a relação de troca deve continuar favorável mesmo com um milho mais caro.
O desafio do confinador em 2027 tende a estar em outro item, o mais pesado do custo da engorda: a reposição. Na fase de retenção, o bezerro se valoriza mais que o boi gordo. Em São Paulo, o ágio da arroba do bezerro sobre a do boi chegou a 45,3% em julho, ante 32,0% um ano antes, e o boi magro tende a seguir o mesmo caminho.
Em resumo, a cotação do milho tende a trabalhar mais sustentada em 2027, com estoques menores, o risco do El Niño e a “concorrência do sorgo”. Medido em arrobas, porém, deve seguir entre os mais baixas da série.
Para o confinador, a atenção maior deve estar na reposição e no planejamento das compras de milho: pela sazonalidade, os preços costumam ser menores na colheita da safrinha, entre junho e agosto.
Informações; Scot Consultoria