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A reunião entre Donald Trump e Xi Jinping não trouxe novos volumes de soja nem mudanças nas condições comerciais para o produto americano, mantendo praticamente inalterado o cenário de disputa pela demanda chinesa. Com 13,73 milhões de toneladas de soja dos Estados Unidos já contratadas e outras 11,3 milhões ainda necessárias para completar o compromisso anual de 25 milhões de toneladas, a atenção do mercado se volta agora para o momento em que a China voltará às compras e para qual origem será escolhida.
Ao mesmo tempo, o Brasil chega aos próximos meses com uma posição relevante. A China já contratou cerca de 28 milhões de toneladas brasileiras, contra 13,73 milhões dos Estados Unidos e 1,65 milhão de Argentina e Uruguai. A diferença tarifária também permanece: a soja americana está sujeita a uma tarifa total de 13% para entrar no mercado chinês, enquanto a brasileira enfrenta 3%.
Para Isabella Pliego, analista de inteligência e estratégia da Biond Agro, o comportamento da China nos próximos meses será determinante para entender como a demanda será distribuída entre as duas principais origens.
“A China entra nos próximos meses com uma parcela importante da sua necessidade já coberta e, por isso, pode esperar para avaliar preços, disponibilidade e as condições comerciais antes de ampliar as compras. O ponto de atenção passa a ser dezembro e o início de 2027, quando essa cobertura diminui e a nova safra brasileira começa a ganhar espaço”, destaca.
Mais da metade do compromisso americano já foi contratado
Dos 25 milhões de toneladas que a China se comprometeu a comprar anualmente dos Estados Unidos entre 2026 e 2028, aproximadamente 13,73 milhões já estão contratadas. O volume representa cerca de 55% do compromisso, deixando aproximadamente 11,3 milhões de toneladas para completar a programação de 2026.
Antes do encontro entre Trump e Xi, o mercado trabalhava com possibilidades de ampliação desse compromisso para algo próximo de 27 milhões a 28 milhões de toneladas, enquanto cenários mais otimistas consideravam 30 milhões. Até o momento, porém, nenhum aumento foi anunciado.
A entrada da nova safra americana aumenta a disponibilidade de soja justamente no período em que a China costuma ampliar sua presença nos Estados Unidos. Por isso, o comportamento das toneladas ainda não contratadas ganha importância para a formação da demanda e para a percepção do mercado sobre o balanço americano.
Segundo Isabella, o ponto central não está apenas no cumprimento do acordo já existente, mas em como a China irá distribuir suas compras entre as origens.
“Completar as 25 milhões de toneladas previstas mantém uma demanda que já está no cenário. O que pode mudar a percepção do mercado é a existência de compras acima desse volume e, principalmente, o ritmo dessas compras. Para o Brasil, será importante acompanhar se a China vai antecipar parte das necessidades ou esperar pela chegada da nova safra”, complementa a analista.
China já tem 39,4% da necessidade contratada
A China chega a esta temporada com aproximadamente 111 milhões de toneladas de necessidade considerada, das quais 43,37 milhões já estão contratadas. A cobertura de 39,4% é superior aos 31,3% registrados no mesmo período do ano anterior.
Embora a necessidade total tenha aumentado cerca de 3%, o volume contratado cresceu aproximadamente 28,8%. Na prática, isso significa que os chineses precisam de mais soja nesta temporada, mas começaram o ciclo com uma parcela maior da demanda já protegida.
A situação é especialmente confortável no curto prazo. Outubro está praticamente resolvido, com 10,49 milhões de toneladas contratadas para uma necessidade estimada de 10,5 milhões. Em novembro, a cobertura chega a 69%, com 5,54 milhões de toneladas compradas para uma necessidade de 8 milhões.
A abertura aumenta a partir de dezembro. A cobertura cai para 40% naquele mês e para apenas 17% em janeiro. Em fevereiro, fica em 26%; em março, sobe para 56%; e em abril, chega a 44%.
Disputa entre Brasil e EUA ganha força no fim do ano
A distribuição das compras chinesas também acompanha a sazonalidade da oferta. Os Estados Unidos aparecem à frente nos embarques contratados para outubro e novembro, período de maior disponibilidade da nova safra americana. Em outubro, são aproximadamente 6,40 milhões de toneladas dos EUA, contra 3,30 milhões do Brasil. Em novembro, são 2,90 milhões americanas e 2,11 milhões brasileiras.
A partir dos meses seguintes, porém, o cenário começa a mudar. Com a aproximação da nova safra brasileira, o Brasil volta a ganhar participação nas compras chinesas. Para fevereiro, já são cerca de 2,11 milhões de toneladas brasileiras contratadas; em março, 6,73 milhões; e, em abril, 5,48 milhões.
A combinação entre menor cobertura chinesa e maior disponibilidade brasileira deve colocar as duas origens em uma disputa mais direta a partir de dezembro e, principalmente, no início de 2027.
“É nesse intervalo que a disputa entre Brasil e Estados Unidos tende a ficar mais evidente. A China terá de decidir entre avançar nas compras durante a janela americana ou deixar parte da demanda para um momento em que a soja brasileira estará mais disponível. A tarifa também continua sendo uma variável importante nessa decisão”, afirma Isabella.
Tarifa mantém vantagem para a soja brasileira
A soja dos Estados Unidos continua enfrentando tarifa total de 13% para entrar na China, enquanto o produto brasileiro está sujeito a 3%. A diferença permanece como um fator que limita a competitividade americana, especialmente nas compras realizadas por agentes privados chineses.
Nesse contexto, a decisão chinesa não depende apenas do volume disponível em cada origem. Preços, tarifas, disponibilidade americana, chegada da nova safra brasileira e o nível de cobertura da demanda passam a ser fatores relevantes para definir o próximo movimento.
Para Chicago, o comportamento das 11,3 milhões de toneladas que ainda faltam para completar o compromisso americano será uma das principais variáveis. Compras que apenas levem o volume aos 25 milhões de toneladas mantêm o fluxo já esperado, enquanto volumes adicionais poderiam alterar de forma mais significativa a percepção sobre a demanda americana.
Para o Brasil, a atenção está concentrada no momento em que a cobertura chinesa começar a diminuir e a nova safra ganhar disponibilidade.
“O mercado precisa olhar além do volume total que a China vai importar. É importante observar quanto já está coberto, para quais meses, de qual origem vem essa soja e quanto ainda falta comprar. É essa combinação que vai mostrar como a demanda será dividida entre Brasil e Estados Unidos e quais podem ser os reflexos sobre Chicago e os prêmios brasileiros”, conclui Isabella.
Informações: Biond Agro