O Grupo Globo anunciou na sexta-feira uma ampla reestruturação em seu organograma e no alto escalão. Vão deixar o grupo os executivos Manuel Belmar, diretor de produtos digitais, finanças, jurídico e infraestrutura; Manuel Falcão, diretor de marca e comunicação; e Pedro Garcia, diretor de aquisição de direitos.
As mudanças fazem parte de uma reorganização da estrutura da empresa, que busca integrar áreas, ampliar sua atuação digital e tornar a operação mais ágil.
As saídas ocorrem em meio a repercussões sobre a negociação dos direitos da Copa do Mundo deste ano e a desaceleração dos negócios de streaming e TV paga.
Segundo reportagem da revista Veja, a perda do pacote integral de jogos do Mundial de 2026 teria sido decisivo na saída de Belmar. Procurados, os diretores não responderam à reportagem.
Pessoas que acompanharam o processo confirmaram ao Estadão que um dos principais motivos para as mudanças teria sido a estratégia adotada pela Globo na negociação dos direitos de transmissão da Copa.
De forma inédita, a emissora preferiu não comprar o pacote integral e ficou com metade dos jogos para exibição em TV aberta e por assinatura.
No ambiente digital, porém, a CazéTV comprou o direito de todos os 100 jogos e, posteriormente, renegociou a distribuição de suas transmissões com plataformas como Disney+ e Prime Video (além do YouTube).
A Globo, por sua vez, transferiu direitos para NSports e SBT. A emissora da família Silvio Santos montou uma equipe com nomes de destaque, entre eles Galvão Bueno e Tiago Leifert, ampliando a concorrência pela audiência da Copa.
Como comparação, na Copa de 2022 a CazéTV, que virou a grande concorrente da Globo, estreou nas transmissões na Twitch e no YouTube.
De todo o público alcançado pelos jogos daquele Mundial pela televisão, a Globo alcançou 98% por meio da TV aberta e 22% da TV fechada, com o SporTV, segundo o Ibope.
Neste ano, a Globo caiu para 82% na televisão aberta e 15% na fechada, enquanto a CazéTV foi de zero a 44%. A Cazé empatou com o SBT e deixou SporTV, GE TV e N Sports para trás.
A Globo foi parceira da Fifa por décadas, mas a relação estremeceu em 2021, quando, em meio à pandemia, quis renegociar os contratos de 2022 e 2026 para reduzir os pagamentos pelos direitos.
Escaldada, a rede deve tentar resgatar os 100% de direitos de TV aberta em 2030. A Fifa planeja nova concorrência para as diversas modalidades de transmissão.
Outro fator para as mudanças teria sido a estagnação do Globoplay - também sob gestão de Belmar. Apesar de ter tido seu primeiro lucro em 2025, a plataforma tem entrado com participações menores na receita do grupo, por conta de redução na venda de assinaturas diretas ao consumidor nos últimos dois anos.
'Especulações'
Por meio de dois comunicados enviados à imprensa, a cúpula da emissora defendeu os executivos dispensados, em contraposição à narrativa de desempenho ruim.
O presidente do Grupo Globo e do Conselho de Administração do grupo, João Roberto Marinho, afirmou que Belmar havia, há pelo menos dois anos, compartilhado com a empresa a decisão de encerrar sua jornada executiva. "Sua decisão deu início a um processo cuidadoso de transição, em consonância com a parceria de sucesso e confiança de mais de duas décadas de Belmar com a Globo."
Em comunicado interno a funcionários, o diretor-presidente, Paulo Marinho, destacou ainda que repudia "as especulações com veemência" e que a decisão de renegociar os direitos do mundial de futebol havia sido tomada exclusivamente pelo conselho de administração, "como é praxe em deliberações de grande porte".
Segundo a empresa, Belmar ficará na Globo até o 1.º trimestre de 2027. Já Falcão e Garcia teriam saído em outro contexto, mas "as especulações também sobre os motivos (para a saída) de ambos não procedem", diz o grupo.
Com a mudança, a Globo aproveita para mexer em sua estrutura de comando. Amauri Soares, que acumulava a TV Globo e os Estúdios Globo desde 2023, agora responderá por uma estrutura com as duas áreas unificadas.
O movimento representa a reversão de uma mudança anunciada por ele próprio em julho de 2025, quando comunicou numa postagem no LinkedIn que Leonora Bardini, executiva responsável pela área de programação da TV Globo, o sucederia na direção do canal.
Já com a saída de Manoel Falcão, a emissora também anuncia a criação de uma nova área integrada de "consumidor, marketing e marca", com o diretor de valor social, Cristovam Ferrara, interinamente na posição, enquanto busca um novo executivo.
Outra mudança é a criação da gestão de direitos, consolidando os setores de distribuição e de direitos, sob o comando de Fernando Ramos, no lugar de Garcia.
Júlia Rueff foi nomeada para a liderança de plataformas digitais, assumindo parte das atribuições de Belmar.
Na estrutura corporativa, relações institucionais, jurídico e compliance migram para a holding do Grupo Globo.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.