
São Paulo, 26 de agosto de 2026 – O Brasil deve manter o mercado global de açúcar abastecido, mesmo diante dos riscos climáticos que reduziram as perspectivas de produção no Hemisfério Norte. A safra de cana no Centro-Sul é estimada em aproximadamente 635,5 milhões de toneladas e funciona como o principal contrapeso à menor oferta esperada em Índia, Tailândia e Europa, segundo análise da Hedgepoint Global Markets.
A disponibilidade de cana e a flexibilidade das usinas brasileiras para ampliar a parcela destinada ao adoçante impedem, por enquanto, uma mudança para um déficit estrutural. O mercado perdeu parte de sua margem de segurança e os preços se afastaram das mínimas observadas no início do ano, mas os fluxos comerciais globais permanecem superavitários nos cenários avaliados pela Hedgepoint.
“O mercado está ficando mais apertado, mas o Brasil ainda tem açúcar suficiente para manter o equilíbrio global confortável”, afirma Lívea Coda, Coordenadora de Inteligência de Mercado da Hedgepoint Global Markets.
Oferta brasileira preserva o equilíbrio global
No Centro-Sul, as chuvas interromperam operações e reduziram temporariamente o ritmo de moagem, mas não indicam menor disponibilidade de cana. A Hedgepoint estima uma safra de aproximadamente 635,5 milhões de toneladas, acima da temporada anterior e entre as maiores da história.
A oferta de matéria-prima permite que as usinas respondam a preços internacionais mais altos. Quando o açúcar remunera mais do que o etanol, aumenta o incentivo para ampliar o mix destinado ao adoçante. Mesmo sob a premissa conservadora de mix de 47,7%, a produção brasileira permanece próxima a 40 milhões de toneladas.
“A abundante disponibilidade de cana no Brasil e a capacidade de ajustar seu mix de açúcar proporcionam um contrapeso poderoso que mantém o mercado fundamentalmente confortável”, diz Lívea.
Estimativa para a safra 2026/27 no Centro-Sul
El Niño amplia riscos para produtores do Hemisfério Norte
A principal fonte de incerteza é a possibilidade de um El Niño de forte intensidade durante fases importantes do desenvolvimento da cana. Historicamente, Tailândia, Índia, América Central e México apresentam vulnerabilidade à seca, ao calor excessivo e à redução das chuvas associados ao fenômeno, o que levou a revisões negativas nas expectativas de produção.
Principais efeitos do El Niño nos países produtores de açúcar
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Índia concentra o principal risco de alta
A Índia permanece como a variável mais crítica. Após o início tardio da monção e a melhora das chuvas em julho, as previsões apontam precipitação abaixo da média no restante da temporada. Os reservatórios seguem em situação preocupante em importantes regiões produtoras e a estimativa de produção está em cerca de 27,6 milhões de toneladas.
Nesse nível, a produção não gera disponibilidade para exportação. O governo indiano já autorizou a importação de 1 milhão de toneladas, enquanto o mercado acompanha a possibilidade de uma deterioração adicional das condições climáticas. A notícia levou as cotações a testarem 18 centavos de dólar por libra-peso, mas os ganhos não se sustentaram diante da queda dos preços domésticos no país asiático, já sinalizando que a Índia pode não cumprir toda a quota autorizada. Parte se deve ao fato de o governo indiano possuir outros mecanismos que podem contribuir com a disponibilidade de adoçante no seu mercado interno, como a restrição já imposta aos estoques de distribuidoras e a redução do desvio do produto para produção de etanol. Fora isso, expectativas de uma disponibilidade sólida do adoçante vindo do Centro-Sul do Brasil em 26/27, com possibilidade dea safra 27/28 da região também ser robusta, limita ganhos de curto prazo.
Na Tailândia, a previsão de moagem foi reduzida para aproximadamente 88 milhões de toneladas de cana, com produção de açúcar estimada em cerca de 9,5 milhões de toneladas e exportações próximas a 6 milhões de toneladas. A menor disponibilidade do país afeta os mercados de açúcar bruto e refinado e ajuda a sustentar o prêmio do produto refinado.
Europa reduz produção após ondas de calor
Na Europa, três ondas de calor consecutivas e a seca em França, Alemanha e Polônia pressionaram a produtividade da beterraba. A produção regional é estimada em aproximadamente 14 milhões de toneladas, cenário que eleva a necessidade de importação, reduz a capacidade de exportação e reforça uma perspectiva mais firme para o açúcar refinado.
As perspectivas são mistas em outras origens. México e América Central enfrentam riscos relacionados ao El Niño; a Ucrânia combina redução de área, menores oportunidades de exportação para a Europa e efeitos da guerra; e a Rússia permanece relativamente estável. A China, por sua vez, deve produzir cerca de 13 milhões de toneladas de açúcar e importar menos do que se previa, diante de estoques confortáveis e menor atratividade da arbitragem.
Fluxos comerciais permanecem superavitários
A disponibilidade para exportação diminui em diferentes regiões, reduzindo o superávit projetado e criando condições mais apertadas ao longo de 2027 quando comparados ao final de 2025 e início de 2026, período marcado por um resultado robusto do Centro-Sul brasileiro e uma recuperação do Hemisfério Norte. O Brasil, porém, continua capaz de compensar grande parte da retração imposta pelos desafios climáticos recentes. Mesmo se as chuvas causadas pelo El Niño em sua principal região produtora levar a menor participação do açúcar no mix, por exemplo próxima a 47%, os fluxos comerciais globais permaneceriam positivos. Entretanto, dada a paridade corrente de preços entre açúcar e etanol, as usinas devem se esforçar para aumentar a participação do adoçante atingindo próximo a 47.7%, fazendo o cenário global mais confortável.
“Mesmo em cenários brasileiros mais conservadores, caracterizados por um menor mix açúcar, os fluxos comerciais globais permanecem em superávit. O mercado fica menos confortável, mas não chega a apresentar escassez de açúcar”, afirma Lívea.
Uma eventual importação de 1 milhão de toneladas pela Índia reduziria o excedente nos dois cenários de mix, 47,1% e 47,7%, avaliados pela Hedgepoint, sem levar os fluxos comerciais globais ao déficit entre o segundo trimestre de 2026 e o terceiro trimestre de 2027. Ainda assim, existe uma diferença no fluxo comercial a depender da qualidade do açúcar, sendo o mercado de açúcar branco mais apertado do que a de açúcar bruto por depender em maior grau da produção do Hemisfério Norte.
Perspectiva é de aperto moderado, não de escassez estrutural
Para o segundo semestre de 2026 e o início de 2027, a Hedgepoint espera um mercado mais equilibrado e com menor margem de segurança. O El Niño reduz o potencial de oferta e justifica preços acima das mínimas observadas no início do ano, mas a safra brasileira, a disponibilidade de cana e a capacidade de elevar a produção de açúcar limitam o risco de um déficit global sustentado e, portanto, que o mercado volte a negociar em patamares elevados de preços como os observados em 2023.
“A perspectiva para o segundo semestre de 2026 e início de 2027 é, portanto, de um aperto moderado, e não de uma escassez estrutural”, conclui Lívea.
Informações: Assessoria Hedgepoint Global Markets