Embrapa apresenta nova cultivar de pera adaptada ao Sul do Brasil

Pera Área é resultado de 20 anos de seleção, avaliação agronômica e validação em diferentes condições de cultivo

25/08/2026 às 09:34 atualizado por Redação - SBA | Siga-nos no Google News
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Uma nova alternativa genética para a produção de peras começa a chegar ao setor produtivo. Desenvolvida pela Embrapa Uva e Vinho (RS), a BRS Áurea reúne características de interesse para o cultivo no Sul do Brasil, como adaptação às condições climáticas da região, potencial produtivo, qualidade dos frutos e capacidade de conservação pós-colheita. É a primeira cultivar de pera desenvolvida pelo programa de melhoramento genético da unidade gaúcha.

A BRS Áurea é resultado do cruzamento entre a pera asiática Hosui e a europeia Abate Fetel, realizado em 2006, em Vacaria (RS). Após cerca de 20 anos de seleção, avaliação agronômica e validação em diferentes condições de cultivo, a cultivar foi registrada no Registro Nacional de Cultivares (RNC) do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), em maio de 2025. 

A BRS Áurea combina características de interesse para produtores e consumidores. Nos locais avaliados no Sul do Brasil, a cultivar apresentou elevado potencial produtivo, de 25 a 30 toneladas por hectare, e colheita precoce, concentrada em janeiro. Ela também se destaca pela resistência à entomosporiose, uma das doenças mais graves e economicamente destrutivas dessa cultura, e pela menor suscetibilidade à mosca-das-frutas quando comparada à pera Rocha, variedade portuguesa comercializada no Brasil.

Entre as características de interesse para o consumidor estão os frutos médios a grandes e uniformes, com massa entre 145 e 190 gramas. Na maturação, a casca adquire coloração amarelo-alaranjada a dourada, característica que inspirou o nome Áurea. A polpa é branca, crocante, suculenta e de sabor equilibrado. 

Os frutos da BRS Áurea são uniformes e simétricos, apresentam massa entre 145 e 190 gramas e, quando maduros, adquirem coloração amarelo-alaranjada ou dourada 

O pesquisador João Caetano Fioravanço, da Embrapa Uva e Vinho, um dos responsáveis pelo desenvolvimento da cultivar, afirma que a BRS Áurea é resultado de um trabalho de longo prazo voltado à obtenção de uma pera adaptada às condições brasileiras. “A BRS Áurea reúne boa adaptação às condições do Sul do Brasil, potencial produtivo e frutos de excelente qualidade. Esses atributos são importantes para estimular a produção brasileira de peras”, avalia. 

A cultivar foi testada e validada no Rio Grande do Sul, nos municípios de Vacaria, Bento Gonçalves e Caxias do Sul, e é recomendada para regiões produtoras de pera que apresentem entre 400 e 600 horas de frio abaixo de 7,2 °C durante o inverno.

 

Pera brasileira se destaca em um mercado dependente de importações 

Uma das características da BRS Áurea é a precocidade de maturação. Nas condições avaliadas, a colheita ocorre predominantemente entre 5 e 20 de janeiro, com ciclo aproximado de 106 dias entre a plena floração e a maturação. A época de colheita permite antecipar a oferta da fruta e pode contribuir para ampliar a janela de comercialização de peras produzidas no Brasil. 

Em sistema de alta densidade, com plantas enxertadas sobre o marmeleiro Adams e espaçamento de quatro metros entre filas e um metro entre plantas, a cultivar apresenta produtividade estimada entre 25 e 30 toneladas por hectare.

A combinação entre época de colheita, potencial produtivo e qualidade dos frutos amplia as possibilidades de uso da cultivar em sistemas comerciais. Para uma cadeia produtiva que ainda depende de importações para atender parte significativa do consumo nacional, a disponibilidade de materiais adaptados às condições brasileiras é um dos fatores importantes para o desenvolvimento da cultura. 

 

Qualidade na pós-colheita

Além do desempenho no pomar, a BRS Áurea mostrou resultados promissores nas avaliações de pós-colheita. Em condições experimentais, as peras permaneceram com boa qualidade para consumo após 90 dias de armazenamento refrigerado a 0,5 °C, seguidos de 7 dias a 20 °C. Nessas circunstâncias, a firmeza da polpa diminuiu e os frutos adquiriram coloração mais alaranjada, mantendo características consideradas adequadas para consumo. 

Segundo a pesquisadora Lucimara Antoniolli, da área de pós-colheita da Embrapa Uva e Vinho, as características de conservação complementam os atributos sensoriais da cultivar. “A BRS Áurea apresenta propriedades muito interessantes para o mercado de frutas frescas pelo bom potencial de conservação pós-colheita, aspecto importante para ampliar o período de comercialização e facilitar a distribuição da fruta”, enfatiza.

Ensaios experimentais também indicaram potencial para períodos mais prolongados de armazenamento. Em atmosfera controlada, frutos mantidos por até 165 dias a 0,5 °C apresentaram maior firmeza após a retirada da câmara. Por outro lado, os frutos são delicados e podem sofrer danos por impacto durante a colheita e o transporte. Por isso, a Embrapa recomenda cuidados no manuseio, na classificação, na embalagem e no transporte.

 

Menor suscetibilidade a doenças e a mosca-das-frutas

A BRS Áurea também apresentou características favoráveis em relação a importantes problemas fitossanitários da cultura. Nas condições em que foi avaliada, demonstrou resistência à entomosporiose e à sarna-da-pereira, doença fúngica que afeta folhas e frutos, além de menor suscetibilidade à mosca-das-frutas, em comparação à cultivar Rocha.

Em áreas experimentais onde as duas cultivares foram plantadas e submetidas à infestação natural, foram registrados 70% de frutos infestados na pera Rocha e 10% na BRS Áurea. Em outro experimento, no qual os frutos foram expostos diretamente aos insetos em condições sem chance de escolha, a infestação também foi menor na BRS Áurea: 40%, contra 100% na Rocha. O pesquisador Marcos Botton, também da Embrapa Uva e Vinho, aponta que a menor suscetibilidade é uma característica de interesse para o sistema de produção.. 

“A menor infestação observada na BRS Áurea é uma característica bastante interessante, principalmente considerando a importância da mosca-das-frutas para a fruticultura do Sul do Brasil. Isso não significa que o produtor possa deixar de monitorar e manejar a praga, mas indica uma característica favorável da cultivar que pode contribuir para o sistema de produção”, pontua.

 

 

 

Alternativa para ampliar a produção brasileira

A produção brasileira de peras ainda é insuficiente para atender à demanda interna e a disponibilidade de cultivares adaptadas às diferentes regiões produtoras permanece como um dos desafios da cultura. A irregularidade da produção e a qualidade dos frutos também são apontadas como fatores que limitam a competitividade da produção nacional. 

Nesse contexto, a BRS Áurea representa uma nova alternativa genética desenvolvida e validada nas condições brasileiras. A expectativa é que a cultivar contribua para diversificar os pomares e ampliar as possibilidades de produção de pera no Sul do País. 

“De todas as diferentes cultivares de pera que já plantei, acredito que a BRS Áurea é a que apresenta maior potencial para a produção competitiva”, avalia Fernando Soldatelli, produtor que participou da validação da cultivar. Segundo ele, a nova pera reúne características importantes para o mercado. “Além de produzir bem, é bonita, suculenta e gostosa. Tudo o que precisamos”, salienta. 

Disponibilidade de mudas

As mudas da ‘BRS Áurea’ podem ser reservadas no Viveiro São Francisco, licenciado pela Embrapa. Outros viveiristas interessados em obter licenciamento para comercializar a cultivar podem solicitar material propagativo à Embrapa Uva e Vinho pelo e-mail [email protected]. A reserva pode ser realizada ao longo do ano, enquanto a entrega ocorre na segunda quinzena de julho do ano subsequente, de acordo com a disponibilidade de material. 

 

A BRS Áurea foi registrada no Registro Nacional de Cultivares (RNC), em 26 de maio de 2025, sob o número 59.655, e posteriormente foi solicitada sua proteção junto ao Serviço Nacional de Proteção de Cultivares (SNPC). 

A equipe responsável pelo desenvolvimento da cultivar é composta pelos pesquisadores e analistas João Caetano Fioravanço, Lucimara Rogéria Antoniolli, Silvio André Meirelles Alves, Marcos Botton, Luis Fernando ReversDaniel Santos Grohs e pelo pesquisador aposentado Paulo Ricardo Dias de Oliveira, da Embrapa Uva e Vinho.

Quase 20 anos de pesquisa

O desenvolvimento da BRS Áurea teve início em 2006, com o cruzamento entre as peras Hosui e Abate Fetel, em Vacaria (RS). A partir de 2015, o material selecionado passou por novas etapas de avaliação. No ano seguinte, foi implantado em áreas experimentais da Embrapa Uva e Vinho, em Bento Gonçalves e Vacaria, para análises de fenologia, produção, qualidade dos frutos e conservação pós-colheita.

Em 2021, foram estabelecidas duas unidades de validação em parceria com produtores, em Vacaria e Caxias do Sul. As plantas foram conduzidas sobre o marmeleiro Adams, no espaçamento de 4 m entre filas e 1 m entre plantas. 

Informações técnicas

As recomendações detalhadas de manejo, fitossanidade e pós-colheita constam na Circular Técnica 170 – "BRS Áurea: cultivar de pera de alta qualidade para o sul do Brasil". 

Informações: Embrapa Uva e Vinho - Viviane Zanella (MTb 14.400/RS)


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