Pesquisa avalia baru em consórcio com café irrigado e culturas anuais e bianuais

Plantas dos baruzeiros floresceram e produziram frutos quatro anos após o plantio. No meio natural, começam a produzir depois de sete a dez anos

14/07/2026 às 13:00 atualizado por Redação - SBA | Siga-nos no Google News
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Novos sistemas de cultivo em consórcio, envolvendo o baruzeiro, o cafeeiro irrigado e culturas anuais e bianuais de ciclo curto, estão sendo testados na Embrapa Cerrados (DF) e poderão, em breve, se tornar alternativas para produtores de pequeno ou grande porte interessados em diversificar a produção e ampliar a renda, que também poderão se beneficiar do uso mais racional e eficiente dos insumos e da oferta ambiental local.

Espécie de árvore nativa do Cerrado brasileiro, o baruzeiro produz uma castanha considerada superalimento devido ao elevado teor de proteínas, fibras e antioxidantes. No entanto, por ser obtido basicamente de coleta ou extrativismo em áreas naturais, o baru ainda não conta com safras previsíveis e regulares. Além disso, elas geralmente são insuficientes para atender à crescente demanda nacional e mundial, o que evidencia a necessidade do estabelecimento de sistemas de produção comerciais eficientes. Já a cafeicultura irrigada é uma cultura consolidada no bioma, onde o clima e a altitude favorecem a produção de cafés de alta qualidade e premiados mundialmente.

Implantados há quatro anos, os sistemas experimentais são conduzidos pelo pesquisador Tadeu Graciolli, responsável pelo desenvolvimento do Sistema Filho – Fruticultura Integrada com Lavouras e Hortaliças, lançado em 2017. “Alguns colegas um dia me perguntaram se seria possível consorciar baru com café e eu disse que sim, uma vez que árvores frutíferas são um dos pilares da tecnologia do Sistema Filho”, relembra.

Em uma área de apenas 3500 m2 nos campos experimentais do centro de pesquisa, foram implantados dois sistemas – um de linha dupla (LD) e outro de linha simples (LS), cada um ocupando um espaço retangular de 45 m x 35 m. “O espaçamento das plantas de baru e o espaçamento das plantas de café é o mesmo nos dois sistemas. O que muda é a posição das plantas de baru em relação às de café. No sistema LS, o baru foi plantado dentro da linha do café, e no LD, uma linha de baru foi plantada no meio de cada duas linhas de café”, explica Graciolli.

Estão sendo avaliados dez clones de baru e três variedades de cafés arábica, considerando-se os dois ensaios. O desenvolvimento e a produção dos materiais têm sido avaliados com o objetivo de selecionar as plantas mais produtivas.

As mudas de baruzeiro foram plantadas entre janeiro e fevereiro de 2022. Os cafeeiros, em fevereiro e março daquele ano. No LD, os cafeeiros são irrigados pelo sistema de microaspersão e a colheita pode ser mecanizada.

 

“Corredores de agricultura”

Cada duas linhas vizinhas de cafeeiros do sistema LD criaram o que Graciolli chama de “corredores de agricultura”: áreas onde o espaço físico disponível e o fornecimento de água por irrigação possibilitam a implantação de cultivos anuais e bianuais como feijão, abacaxi e mandioca enquanto os baruzeiros e cafeeiros crescem e ainda não produzem frutos. Essas culturas podem ser plantadas em sucessão e colhidas em poucos meses, gerando renda para compensar o investimento no plantio do baruzeiro e do cafeeiro.

“O sistema LD foi pensado para obtenção de baru no longo prazo, café no médio prazo e culturas anuais e bianuais no curto prazo. Isso é para que o pequeno produtor se sinta seguro em entrar na atividade de plantio de baru, uma vez que outras culturas vão proporcionar giro financeiro enquanto o baruzeiro ainda não estiver produzindo”, esclarece.

O pesquisador ressalta os resultados iniciais para as culturas anuais e bianuais (veja quadro no fim desta matéria). “Obtivemos boas produtividades, aproveitando a irrigação destinada ao café”, diz.

 

 

 

Resultados iniciais são promissores

A primeira safra de café dos sistemas foi colhida em maio de 2024, com produtividade geral de cerca de 40 sacas por hectare – as três variedades utilizadas apresentaram diferentes potenciais de produção.

Em maio deste ano, enquanto os frutos da terceira safra de café estavam prestes a serem colhidos, os baruzeiros apresentavam um desenvolvimento mais rápido que o registrado em condições naturais. Nessas condições, a espécie começa a produzir entre sete e dez anos. No sistema estudado, após pouco mais de quatro anos do plantio, nove plantas floresceram e começaram a produzir frutos. Algumas floresceram com dois anos e dez meses.

“Isso é impensável em ambientes naturais ou em plantios de recomposição de áreas degradadas, nos quais não há o aporte de irrigação nem uma melhoria tão substancial no manejo do ambiente de cultivo como aqui, com controle de plantas invasoras, podas, irrigação e adubação”, afirma Graciolli. O pesquisador ressalta que nesse sistema o baruzeiro não é adubado, ao contrário das demais culturas. “Ele se aproveita dos nutrientes residuais da adubação do café, do feijão, do abacaxi”, completa.

A água aplicada no sistema também não é destinada ao baruzeiro – devido à expectativa de produção de frutos no longo prazo, não é economicamente viável estabelecer um sistema de irrigação exclusivo para a espécie. “A irrigação é dirigida para o café e as culturas de ciclo curto. O baru entra como um ‘convidado’ do sistema, aproveitando a água que sobra dessas outras culturas”, explica o pesquisador. Ainda segundo ele, o manejo do baruzeiro consiste na poda dos ramos mais baixos para levantamento das copas, de modo que a planta explore o estrato superior e sombreie parcialmente o cafeeiro, criando uma condição que promova conforto térmico para as plantas de café.

Graciolli observa que sistemas integrados como esses consórcios permitem maior eficiência de uso de insumos como água e nutrientes, além de aumentarem a biodiversidade local de cultivos, contribuindo para a redução da ocorrência de pragas e doenças. “São produzidos diversos produtos numa mesma área, o que traz sustentabilidade econômica. Isso favorece o pequeno produtor rural para que ele consiga viver da exploração agrícola”, acrescenta, lembrando que os consórcios foram concebidos originalmente para áreas de agricultores familiares, mas podem ser testados em propriedades maiores e adaptados às condições locais.

 

 

Perspectivas

A terceira e a próxima safra de café, que deverá ser colhida em 2027, ainda serão observadas. “Depois da quarta safra, faremos a poda e o rebaixamento das plantas de café. E esperamos que o baru já tenha mais plantas atingindo a idade adulta e entrando em produção”, projeta o pesquisador.

Ele comenta que, após cinco anos de implantação, a estratégia será novamente avaliada. “Quando fizermos isso, abriremos novamente a entrada de luz solar nos corredores de agricultura. É possível que voltemos a fazer agricultura ali, plantando culturas em sistema de covas, talvez mandioca ou uma hortaliça como quiabo ou abóbora”, diz.

Em paralelo às avaliações dos sistemas de consórcio, as plantas de baru que vão se mostrando mais produtivas e de crescimento mais rápido também são avaliadas para seleção das melhores, inclusive para outros usos como a recomposição de áreas desmatadas. “Temos dez materiais de baru. Algumas plantas estão crescendo muito rápido e outras nem tanto. Queremos justamente isto: selecionar as plantas top de linha para produzir mudas por enxertia e, quem sabe, no futuro, lançar um pacote de variedades superiores de baru”, informa Graciolli.

Apesar de ser atualmente um experimento, a expectativa do pesquisador é de que a área avaliada se torne um protótipo para uma futura área de exploração de baru. “Em sistemas dessa natureza, espera-se que o investimento financeiro seja amortizado pelas culturas de ciclo mais curto e, assim que os baruzeiros atingirem a fase adulta, se estabilizarem e entrarem em franca produção, se tornem uma cultura agronômica rentável”.

 

 

 

Desempenho das culturas anuais e bianuais

Nos experimentos, a produtividade média de três cultivares de feijão (foto acima) utilizadas foi de 1,8 a 2,2 toneladas por hectare. “O desempenho produtivo foi comprometido, pois as plantas foram comidas por veados campeiros. Não fosse isso, certamente teríamos produtividades bem maiores, acima de 3 toneladas por hectare”, garante o pesquisador Tadeu Graciolli.

Logo após a colheita do feijão, dois clones de abacaxi foram testados, um da cultivar Smooth Cayenne (também chamada de Havaí) e outro da Pérola. “Com o Smooth Cayenne, obtivemos frutos bastante pesados, de 1,8 a 2,2 quilos por fruto, com excelente aparência e sabor. Já com o Pérola, obtivemos frutos com massa entre 1,3 e 1,8 quilos por fruto, também com bom aspecto visual e doçura e acidez bem equilibrados”.

 

 

Quatro plantas de mandioca foram colhidas a cada mês, dos 10 aos 16 meses, e a produção de raízes saltou de 4,5 kg para 7,5 kg por cova com o avançar do tempo. “Era uma área, dentro do corredor de agricultura, que não pretendíamos utilizar para plantio. Ao traçarmos o espaçamento, vimos que caberiam mil plantas de mandioca por hectare. Ou seja, com a produtividade alcançada, temos o potencial de produzir 7 toneladas de mandioca para ‘girar a máquina’. Assim, enquanto uma cultura não está entregando produção, com certeza outra estará”, comenta.

O sistema LS utiliza o espaçamento de 4 metros entre linhas de cafeeiros, e o baruzeiro foi plantado linha sim, linha não, na mesma linha do cafeeiro. Nessa configuração, não há outras culturas de ciclo curto nas entrelinhas e a linha de cafeeiro com baruzeiro não pode ser colhida com o uso de máquinas.

A ideia para esse sistema, segundo o pesquisador, é ter um tratamento testemunha, ou seja, sem as culturas anuais, também para avaliar o desempenho das plantas de café em função da proximidade com as plantas de baru. “Nas duas primeiras safras, as plantas mais próximas aos pés de baru tiveram um decréscimo de produção em 30% devido à competição por água e nutrientes. Creio não ser tanto por alguma competição por luz, que aqui temos em abundância”, explica.

No sistema LS, a irrigação é feita por gotejamento, e assim como no sistema LD, é destinada apenas às plantas de cafeeiro, mas os baruzeiros também a recebem. “Nesse sistema, o produtor pode produzir café gourmet em 1 a 2 hectares e, após cinco anos, ele terá o início de produção dos frutos de baru”, sugere Graciolli.

 

 

 

Fotos: Tadeu Graciolli

Informações: Embrapa Cerrados - Breno Lobato (MTb 9417/MG)

 


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