
O fortalecimento do fenômeno El Niño pode provocar impactos significativos na produção agrícola brasileira nos próximos meses. De acordo com estimativas apresentadas por especialistas da Fundação Getulio Vargas (FGV), caso o evento evolua para um estágio considerado muito forte, culturas como soja, milho, café e laranja poderão registrar perdas de produtividade entre 7% e 10%.
As projeções foram apresentadas durante uma mesa-redonda promovida pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS) nesta terça-feira (7) e têm como base a análise de episódios semelhantes registrados nas últimas décadas.
Segundo o professor da FGV e ex-secretário do Ministério do Meio Ambiente, Eduardo Assad, ainda é cedo para confirmar a intensidade máxima do fenômeno. A expectativa é que uma definição mais precisa ocorra até o fim de julho.
"Neste momento, o El Niño é considerado forte. Caso evolua para muito forte, haverá um aumento superior a dois graus na temperatura média, enquanto o estágio atual representa um aquecimento entre um e um grau e meio", explicou o pesquisador.
Os especialistas destacam que os principais efeitos sobre a agricultura tendem a se intensificar a partir de setembro, quando o fenômeno costuma alterar o regime de chuvas em diversas regiões do País. Além das temperaturas mais elevadas, a distribuição irregular das precipitações pode comprometer o desenvolvimento das lavouras e reduzir o potencial produtivo das principais culturas brasileiras.
Entre as culturas mais vulneráveis estão a soja, o milho, o café e a laranja, produtos de grande importância para a economia nacional e para a balança comercial do agronegócio.
Embora ressalte que ainda não existam evidências científicas que relacionem diretamente as mudanças climáticas ao aumento da intensidade do El Niño, Assad observa que a frequência desses eventos vem crescendo nos últimos anos. Para ele, ações voltadas à redução das emissões de gases de efeito estufa podem contribuir para minimizar os impactos provocados pelo fenômeno.
O pesquisador também chamou atenção para a necessidade de ampliar iniciativas de recuperação ambiental em estados como Mato Grosso, onde as ondas de calor têm se tornado mais frequentes e intensas, afetando inclusive a pecuária. Segundo ele, práticas como o plantio de árvores e sistemas produtivos mais sustentáveis ajudam a reduzir os efeitos das altas temperaturas.
Durante o debate, o professor da FGV e ex-secretário do Ministério da Agricultura, Guilherme Bastos, destacou que os grandes produtores rurais já possuem maior capacidade para enfrentar eventos climáticos extremos, mas alertou para a vulnerabilidade dos pequenos e médios agricultores.
Na avaliação de Bastos, estados e municípios precisam ampliar os investimentos em mapeamento de riscos, planos de contingência para secas e enchentes e mecanismos de proteção financeira, como os seguros paramétricos, que permitem o pagamento automático de indenizações quando determinados indicadores climáticos são atingidos.
Dados apresentados pela FGV mostram que o Brasil ainda enfrenta desafios nessa área. Informações compiladas a partir do IBGE indicam que, em 2020, 72% dos municípios brasileiros não possuíam planos de prevenção contra enchentes em seus planos diretores. No caso das secas, a situação é ainda mais preocupante: 78% das cidades não contavam com estratégias específicas para enfrentar períodos de estiagem.
O cenário reforça a importância do monitoramento climático e da adoção de políticas públicas voltadas à adaptação da agropecuária brasileira às mudanças nas condições do clima, especialmente diante da possibilidade de um El Niño mais intenso ao longo do segundo semestre.
Fonte: Estadão