Novo software favorece o ganho genético e reduz a consanguinidade na raça Gir Leiteiro

Desenvolvida pela Embrapa e pela Associação Brasileira de Criadores de Gado Gir Leiteiro (ABCGIL), a ferramenta torna a seleção genética mais precisa e contribui para a sustentabilidade dos rebanhos

07/07/2026 às 09:39 atualizado por Redação - SBA | Siga-nos no Google News
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A busca pelo ganho genético na pecuária leiteira ganhou um aliado tecnológico que une a precisão dos dados biológicos à sustentabilidade dos rebanhos. Trata-se de um novo sistema (software) de simulação de acasalamentos que amplia a eficiência da seleção genética e controla a endogamia (consanguinidade) na raça Gir Leiteiro. A inovação foi desenvolvida em parceria entre a Embrapa Gado de Leite (MG) e a Associação Brasileira de Criadores de Gado Gir Leiteiro (ABCGIL).

Segundo o pesquisador da Embrapa Gado de Leite João Cláudio Panetto, a ferramenta atua como um consultor digital para o produtor, cruzando informações de valores genéticos estimados e de parentescos genômicos para indicar os acasalamentos mais produtivos e geneticamente seguros.

A endogamia é um subproduto natural da seleção intensa, afirma o também pesquisador da Embrapa Gado de Leite Marcos Barbosa da Silva. Ele explica que ao utilizar repetidamente os touros líderes de sumários (catálogos técnicos que reúnem os resultados de avaliações genéticas de bovinos) para acelerar a produção de leite, a base genética da raça tende a estreitar. “O grande risco é a chamada depressão endogâmica, que provoca o efeito inverso do desejado”, afirma. Entre esses efeitos estão a perda de fertilidade, redução na persistência da lactação, menor longevidade das vacas e o aparecimento de anomalias genéticas.

O novo software mitiga esse risco na origem. Ao simular o acasalamento de uma matriz com um touro do sumário, ou mesmo de um touro que ainda vai ter seus resultados publicados nos próximos anos, o sistema calcula instantaneamente o coeficiente de consanguinidade do futuro produto. Caso o índice ultrapasse os limites biológicos recomendados, o programa emite um alerta, permitindo ao produtor escolher alternativas de reprodutores que mantenham o ganho genético sem comprometer a saúde do plantel.

 

Do laboratório ao campo

À frente do processamento dessa densa massa de dados está o Laboratório de Bioinformática e Genômica Animal (LBGA) da Embrapa Gado de Leite. É no LBGA que a ciência de dados se transforma em recomendação prática para o campo. Com o avanço da genotipagem em larga escala, o volume de informações gerado por animal saltou de dezenas de dados de pedigree para centenas de milhares de marcadores moleculares (SNPs).

O laboratório atua como o motor analítico do programa, processando algoritmos complexos que predizem valores genéticos, no formato de PTA (Predicted Transmitting Ability) e também calculam os parentescos genômicos entre todos os pares possíveis, entre touro, e vacas, permitindo o uso de teto seguro para os acasalamentos.

Além do pedigree

A inteligência analítica, segundo Panetto, estruturada pelo Laboratório de Bioinformática permite que a ferramenta entregue soluções que vão além do controle de parentesco. Entre eles destacam-se:

- Otimização pelo novo IPGL – O sistema calibra as sugestões com base no Índice de Produção do Gir Leiteiro (IPGL) reformulado, equilibrando volume de leite, sólidos (gordura e proteína) e precocidade sexual.

Filtro de doenças hereditárias – Todos os touros são testados e livres de mutações recessivas para enfermidades fatais ou debilitantes, como DUMPS (Deficiência da Uridina Monofosfato Sintase), CVM (Doença do Complexo de Má Formação Vertebral)e BLAD (Deficiência de Adesão Leucocitária Bovina).

- Segmentação para qualidade do leite – Permite filtrar reprodutores com base na genotipagem para as variantes de beta-caseína (produção de Leite A2) e kappa-caseína, esta última diretamente ligada ao maior rendimento na fabricação de queijos.

- Predição para Fertilização In Vitro (FIV) – O software incorpora estimativas genéticas voltadas para a eficiência reprodutiva das doadoras (produção de óvulos), atendendo a uma demanda central dos criadores que utilizam biotecnologias de reprodução assistida.

 

Pecuária de Precisão

O papel do Laboratório de Bioinformática e Genômica Animal reforça a transição da pesquisa agropecuária tradicional para a era da bioeconomia digital. Ao centralizar as análises no LBGA, a Embrapa assegura que os modelos preditivos acompanhem a evolução demográfica da raça em tempo real.

Para os criadores associados à ABCGIL, a tecnologia representa a democratização do melhoramento genético de precisão. O acesso rápido a relatórios de simulação mitiga o erro na fazenda, reduz custos com descartes involuntários e consolida a competitividade do Gir Leiteiro no cenário nacional e internacional.

 O preço oculto da consanguinidade

Silva destaca que na busca por acelerar o ganho genético, a utilização repetida de poucos reprodutores de destaque pode criar uma armadilha invisível para o rebanho: a endogamia. O acasalamento entre animais aparentados estreita a base genética e dá origem à chamada depressão endogâmica, um fenômeno biológico que afeta diretamente o bolso do produtor.

Os principais impactos da consanguinidade sem controle incluem queda na produção e persistência:

- Níveis elevados de endogamia causam redução da produção total por lactação e da capacidade da vaca de manter o pico de produção por mais tempo;

- Prejuízos reprodutivos (ocorre um aumento significativo na taxa de abortos, maior incidência de natimortos, repetição de crias e atraso na idade ao primeiro parto das novilhas);

- Vulnerabilidade imunológica (animais com endogamia elevada tendem a apresentar um sistema imune mais frágil, elevando a incidência de doenças comuns no manejo leiteiro, como a mastite);

- Manifestação de defeitos genéticos (genes recessivos prejudiciais, que normalmente ficariam ocultos, passam a se encontrar. Isso resulta no nascimento de bezerros com malformações ou síndromes metabólicas fatais).

Os pesquisadores da Embrapa Gado de Leite apontam que o coeficiente de consanguinidade individual de um animal deve ser mantido, idealmente, abaixo de 6,25%. Acima deste patamar, as perdas zootécnicas e econômicas podem se tornar importantes e evidentes no dia a dia da propriedade.

Da raça pura aos cruzamentos multirraciais

Embora o software gerido pela ABCGIL seja exclusivo para o universo do Gir Leiteiro, a inteligência científica desenvolvida pela Embrapa Gado de Leite atua como uma matriz tecnológica para toda a cadeia pecuária nacional. O modelo de predição de endogamia e seleção molecular está se expandindo em duas frentes:

1 - Plataforma Genômica Multirracial: Uma iniciativa inédita irá integrar os bancos de dados da ABCGIL (Gir Leiteiro), da Associação Brasileira dos Criadores de Girolando e da Associação Brasileira de Criadores de Bovinos da Raça Holandesa (ABCBRH). O objetivo é permitir que o produtor simule e preveja com precisão o resultado do cruzamento entre raças puras e sintéticas, otimizando a formação do rebanho mestiço diretamente pelo sistema.

2 - Sistemas equivalentes no setor: O conceito de acasalamento dirigido por bioinformática já é replicado pelas principais entidades da pecuária como a Associação de Criadores da Raça Girolando, que possui ferramentas dedicadas a monitorar a consanguinidade e fixar as frações de grau de sangue ideais (1/2, 3/4 e 5/8).

A ABCBRH também utiliza índices genômicos para gerenciar a diversidade genética de uma base com mais de 2 milhões de animais registrados e a Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ) disponibiliza módulos de acasalamento que calculam a consanguinidade predita pelo pedigree, também para as demais raças zebuínas de aptidão leiteira, como Guzerá e Sindi.

A padronização dessas ferramentas de precisão pela Embrapa assegura que, independentemente da raça escolhida, o produtor brasileiro tenha acesso a decisões baseadas em dados, mitigando prejuízos econômicos antes mesmo da inseminação ou transferência de embrião.

Informações: Rubens Neiva (MTb 5445) da Embrapa Gado de Leite


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