O dólar encerrou a sessão desta terça-feira, 30, em leve baixa no mercado local, na casa de R$ 5,16, alinhado ao comportamento da moeda americana em relação à maioria das divisas emergentes. Apesar da virada de mês e de semestre, com rolagem de contratos futuros e a tradicional disputa pela formação da taxa ptax, o dólar oscilou em margens estreitas.
Operadores ouvidos pela Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado) afirmam que o ambiente é de cautela e pouco apetite por negócios, após a rodada recente de depreciação do real. Além do aumento dos ruídos políticos e fiscais com o andamento do calendário eleitoral, investidores aguardam dados do mercado de trabalho americano para refinar as apostas sobre os próximos passos do Federal Reserve.
"Foi aparentemente um dia de correção técnica, com o mercado buscando devolver um pouco dos ganhos recentes do câmbio. O real andou praticamente junto com a maioria das moedas emergentes", afirma a economista-chefe do Ouribank, Cristiane Quartaroli.
Tirando uma alta mais forte na primeira hora de negócios, quando superou R$ 5,20 e registrou máxima de R$ 5,2017, o dólar operou em leve baixa ao longo da segunda etapa do pregão. Com mínima de R$ 5,1625, fechou em queda de 0,22%, a R$ 5,1630. A moeda termina junho com valorização de 2,38% frente ao real, após ganhos de 1,82% em maio. Apesar do repique nos últimos dois meses, ainda recua 5,94% no ano.
O economista Sergio Goldenstein, sócio-fundador da Eytse Estratégia, ressalta que junho foi marcado por um movimento global de alta do dólar, com dados fortes de atividade nos EUA e a mudança das expectativas para a política monetária americana. Ele acrescenta que o real, que vinha apresentando "performance relativa" melhor que a dos pares no ano, sofreu mais que outras divisas emergentes no mês em razão de fatores locais.
"Tivemos uma piora dos termos de troca, com a devolução da alta do petróleo, e um aumento das preocupações fiscais com as medidas do governo", afirma Goldenstein, mencionando que investidores passaram a trabalhar com probabilidade maior de reeleição de Lula, o que significa manutenção da atual política econômica.
As cotações do petróleo recuaram nesta terça-feira, 30, e fecharam junho com perda de certa de 20%, em meio às negociações de paz entre EUA e Irã e à normalização do fluxo de embarcações pelo Estreito de Ormuz. Foi o maior tombo trimestral do petróleo desde 2020. Apesar disso, a commodity ainda avança mais de 20% em 2026.
Lá fora, referência do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes - o índice DXY - pouco se mexeu ao longo da tarde e, por volta das 17h, era negociado aos 101,131 pontos (+0,03), após mínima aos 101,049 pontos. O Dollar Index termina junho com valorização superior a 2%. O iene caiu para os menores níveis desde a década de 1980, o que estimula apostas de intervenção no câmbio.
Goldenstein vê possibilidade de alguma recuperação do real, em paralelo ao movimento de outras divisas emergentes, caso a moeda americana volte a perder força no exterior. Ele ressalta que o indicador-chave da semana é a divulgação nesta quinta-feira, 2, do relatório de emprego (payroll) norte-americano. Nesta terça, o relatório Jolts mostrou que a abertura de postos de trabalho nos EUA subiu para 7,594 milhões em maio, acima do esperado (6,975 milhões).
"A curva americana já embute uma ou duas altas de 0,25 ponto porcentual nos juros pelo Fed até o fim do ano. Um payroll forte vai consolidar esse cenário. Se os dados forem mais fracos, podemos ver o mercado reduzir a precificação de alta de juros, abrindo espaço para o dólar se depreciar, o que é bom para a moeda brasileira", afirma o sócio-fundador da Eytse Estratégia.
O Citi afirma em relatório que a alta recente do petróleo elevou as exportações brasileiras, o que levou a um fortalecimento temporário do real. Com expectativa de superávit comercial de US$ 78 bilhões neste ano (3% do PIB frente a 2,6% no ano passado) e uma desaceleração da economia, o que reduz os déficits nas contas de serviços e renda, o banco projeta déficit em transações correntes de 2,2% do PIB em 2026, de 2,9% em 2025.
"Olhando para frente, dada a expectativa de preços mais baixos do petróleo e de aumento das incertezas relacionadas ao quadro fiscal doméstico, esperamos uma moeda moderadamente mais fraca, com taxa de câmbio de R$ 5,30 no fim de 2026", afirma o departamento econômico chefiado por Leonardo Porto.