El Niño aumenta risco para soja do Cerrado e milho

18/06/2026 às 17:54 atualizado por Gabriel Azevedo - Estadão | Siga-nos no Google News
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São Paulo, 18 - O El Niño que se instala agora deve vir com intensidade forte, trazer chuvas irregulares ao Cerrado desde o início da temporada e colocar o milho de segunda safra no centro do risco da safra brasileira de grãos 2026/27, disse o sócio fundador e agrometeorologista da Rural Clima, Marco Antônio dos Santos, em entrevista ao podcast Prosa Agro, do Itaú BBA. "Anos de El Niño não são anos bons de safra no Brasil. Se você pegar historicamente, de 2005 para cá, todos os anos de El Niño foram anos de safra com problemas", afirmou. Santos disse que o análogo mais próximo para o episódio atual é 1997/98, não 2023/24, com base no padrão de aquecimento do Pacífico observado entre janeiro e maio deste ano. O paralelo pesa porque episódios fortes anteriores já trouxeram perdas em Mato Grosso. "Esse ano o risco é grande, a gente não descarta a possibilidade de quebras, não só em Mato Grosso, mas no Cerrado como um todo", afirmou. A Rural Clima trabalha com a possibilidade de o aquecimento do Pacífico superar 2 graus, o que colocaria o fenômeno em patamar forte. O agrometeorologista, porém, evitou aderir ao tom de "super El Niño" ou de catástrofe usado em parte do debate recente. "Se ele vai virar um super El Niño, se ele vai ser o mais forte de todos, ainda é incerto", disse. "Nós da Rural Clima não achamos que isso vai acontecer, mas ele vai passar dos 2 graus." O risco para a soja começa antes da produtividade, no calendário de plantio. Santos disse que deve chover cedo no Cerrado, com precipitações em agosto, setembro e outubro, mas advertiu que chuva antecipada não significa regime regularizado. "Uma coisa é chover, outra coisa é regularizar as chuvas", afirmou. A expectativa da Rural Clima é de pancadas intercaladas com veranicos e calor intenso, sem regularização definitiva antes de meados de novembro. O padrão lembra 2023/24, quando produtores avançaram no plantio nas primeiras chuvas e depois enfrentaram replantio e perdas. Neste ano, segundo Santos, as chuvas devem aparecer antes, mas ainda de forma irregular. "O que nós estamos vendo é que as chuvas só devem regularizar de fato em meados de novembro e em diante", afirmou. "É um ano complicadíssimo nesse início de temporada." O milho de segunda safra concentra a maior preocupação. Se o plantio da soja se espalhar por uma janela mais longa, a colheita também atrasa, e a semeadura da safrinha entra mais tarde. Do outro lado, o El Niño pode cortar as chuvas mais cedo no começo de abril de 2027. A Rural Clima já trabalha com a hipótese de interrupção das precipitações na primeira quinzena daquele mês. "O grande risco do Brasil esse ano chama-se safrinha", afirmou Santos. "Se programa para chuvas cortarem já na primeira quinzena de abril e não ter mais chuva." A combinação de semeadura tardia com fim antecipado das chuvas pode pegar o milho em fase reprodutiva sem umidade, cenário em que o produtor tem pouca margem de reação. "Se o El Niño adentrar, mesmo que esteja perdendo forças, mesmo que já bem mais fraco, mas se ele estiver lá em fevereiro, as chuvas cortam cedo. Isso é fato", disse Santos. Para a soja, a leitura ainda é aberta. Santos disse que a oleaginosa deve ter problemas, mas que ainda é cedo para calcular quebra. O calor, porém, preocupa tanto quanto a irregularidade das chuvas. Segundo ele, temperaturas médias acima de 30ºC a 32ºC aumentam o estresse das plantas e podem agravar perdas, como ocorreu em 2023/24. Santos também chamou atenção para o Norte do País, região que considera subestimada no debate sobre El Niño. A seca sobre a bacia amazônica pode derrubar o nível dos rios e comprometer a operação do Arco Norte, corredor importante para o escoamento da soja brasileira. Em 2024, barcaças chegaram a ficar paradas e, em alguns momentos, nem com 10% da carga conseguiam operar, segundo o agrometeorologista. "Eu ficaria muito mais preocupado com o Norte por conta dos portos do que com o Nordeste", disse. Para o Sul do Brasil e para a Argentina, a leitura é mais favorável. O El Niño tende a potencializar as chuvas nessa faixa, beneficiando a produção de soja e milho. O risco fica mais associado à colheita, com possível excesso de precipitação no outono de 2027. "Por enquanto, eu não apostaria em quebranças na Argentina. Pelo contrário", afirmou. Nos Estados Unidos, o agrometeorologista também não vê ameaça relevante para soja e milho. "Para soja, para milho e para algodão eu não vejo nenhum problema", disse. Apesar do alerta, Santos criticou exageros no noticiário recente sobre o fenômeno. Ele disse ter visto projeções atribuindo ao El Niño o potencial de matar 4% da população mundial, o equivalente a 320 milhões de pessoas. "Como você pode falar que um evento desse vai exterminar 4% da população?", questionou. Para ele, a agricultura brasileira também está mais preparada do que em eventos fortes anteriores, com melhor tecnologia, cultivares, manejo e perfil de solo. "Esse El Niño não é tudo que estão pintando, não é um apocalipse, mas também está longe de ser um El Niño tranquilo", afirmou. Durante o podcast, o analista da Consultoria Agro do Itaú BBA Francisco Queiroz disse que o risco climático ainda não está refletido nos preços. "O risco é o El Niño, ele não está precificado hoje no mercado", afirmou. Santos disse que a reação das cotações dependerá do comportamento das chuvas no fim do ano, quando o plantio avançar e os veranicos saírem da teoria. "Essa precificação só vai surgir no final do ano, porque aí começam os veranicos, começa o plantio, porque agora é tudo na teoria", afirmou.

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