
O agronegócio brasileiro segue como uma das principais forças da economia nacional, mas enfrenta desafios estruturais que podem limitar seu crescimento nos próximos anos. É o que aponta um relatório da representação do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) em Brasília, que destaca os gargalos logísticos como uma das maiores ameaças à competitividade do setor.
O Brasil ocupa posição de liderança mundial na produção e exportação de produtos como soja, açúcar, café e suco de laranja, além de figurar entre os principais fornecedores globais de carnes, milho e algodão. Em 2025, o agronegócio respondeu por 25% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro e por quase metade das exportações do País.
Apesar da relevância econômica, a infraestrutura de transporte não acompanhou o crescimento da produção agrícola. O relatório destaca que o Brasil ainda depende fortemente das rodovias para escoar suas safras, mesmo em percursos de longa distância. Atualmente, cerca de 69% do transporte de grãos é realizado por caminhões, enquanto as ferrovias respondem por 22% e as hidrovias por apenas 9%.
Essa dependência aumenta os custos logísticos e reduz a competitividade dos produtos brasileiros. Em algumas regiões, o frete pode representar até 60% do valor da tonelada de milho e cerca de 25% do valor da tonelada de soja, especialmente em áreas distantes dos principais portos de exportação.
O USDA destaca que boa parte da produção agrícola percorre entre 1,5 mil e 2 mil quilômetros até chegar aos portos do Sul e Sudeste. O resultado são congestionamentos, filas nos terminais e uma demanda elevada por caminhões durante os períodos de colheita.
Nos últimos anos, o chamado Arco Norte tem ganhado importância estratégica para reduzir esses custos. O corredor logístico reúne rodovias, ferrovias, hidrovias e portos localizados nas regiões Norte e Nordeste. Sua participação nas exportações de soja, milho e farelo de soja saltou de 12% em 2010 para 35% em 2024.
Segundo estudos citados pelo relatório, produtores de Mato Grosso podem economizar cerca de US$ 7,82 por tonelada exportada para a China ao utilizar os portos do Arco Norte em vez do Porto de Santos.
Outro modal que vem ganhando espaço é o transporte hidroviário. Em 2025, as hidrovias movimentaram aproximadamente 91 milhões de toneladas de produtos agrícolas, principalmente soja e milho. Paralelamente, investimentos públicos e privados ampliaram a participação dos Terminais de Uso Privado (TUPs), que atualmente respondem por quase dois terços das operações portuárias brasileiras.
As ferrovias também avançam com novos projetos e mudanças regulatórias. Entre os empreendimentos considerados estratégicos estão a Ferrovia do Mato Grosso, a Nova Ferroeste, a Ferrovia Norte-Sul e a Ferrogrão, que pretende conectar a principal região produtora de grãos do País aos portos do Arco Norte. De acordo com especialistas citados pelo USDA, o transporte ferroviário pode reduzir os custos de frete entre 15% e 25% em comparação ao transporte rodoviário.
Além do transporte, a armazenagem é apontada como um dos principais gargalos do agronegócio nacional. Atualmente, a capacidade de estocagem de grãos do Brasil atende apenas entre 60% e 70% da produção total. A falta de silos obriga muitos produtores a vender a produção logo após a colheita ou até mesmo utilizar caminhões como alternativa temporária de armazenamento.
Para o USDA, o futuro da competitividade do agronegócio brasileiro dependerá diretamente da capacidade do País de investir em infraestrutura. A ampliação da armazenagem, o fortalecimento das ferrovias e hidrovias, a modernização dos portos e a redução da burocracia são apontados como medidas fundamentais para diminuir os custos logísticos, que hoje representam cerca de 30% dos custos de produção do setor.
Sem avanços nessas áreas, o Brasil corre o risco de ver parte de sua vantagem competitiva ser reduzida, mesmo mantendo elevados índices de produtividade e liderança no mercado agrícola global.
Fonte: Estadão