Mercado do leite mais previsível em meio à volatilidade

João Paulo Franco explica como a ferramenta de hedge pode ajudar o produtor a travar custos, planejar receitas e reduzir riscos em um cenário de pressão sobre a pecuária leiteira

12/06/2026 às 08:04 atualizado por Redação - SBA | Siga-nos no Google News
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Em 13 de maio foi feito o lançamento da ferramenta de hedge para lácteos no Brasil, idealizada pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). A data é considerada simbólica pelo coordenador de pecuária da Confederação, João Paulo Franco. O intuito da ferramenta é garantir previsibilidade para o produtor de leite, com a promessa de ser democrática e inovadora para a pecuária leiteira do Brasil. 

O grupo de trabalho se baseou no modelo aplicado no Estados Unidos e Europa. “E a gente falou: ‘não, temos que ter uma ferramenta aqui no Brasil’. E assim acabou surgindo. Conseguimos viabilizar a questão do hedge para os lácteos brasileiros”. Leia a entrevista completa realizada pela Scot Consultoria:

Quem pode utilizar essa ferramenta? Qualquer tamanho de produtor pode fazer a trava?
João Paulo Franco: Um ponto importante é que ela é democrática. Então, tanto o grande produtor pode operar, quanto o pequeno produtor também pode operar. O que ele precisa fazer? Ele precisa abrir uma conta na corretora, que é uma coisa relativamente simples, e a partir daí ele pode operar. “Ah, mas o contrato é de 40,0 mil litros, e o produtor que tira menos de 40,0 mil litros?”, ele não precisa fechar um contrato inteiro, ele tem a possibilidade de fracionar isso. Então, ele pode fechar meio contrato, ele pode fechar um terço de contrato, daquele volume do contrato. Então, ela é democrática, ela é para todo mundo, e todo mundo pode acessá-la.

Como eu te disse, é um ganho da cadeia, não é só o produtor pequeno, médio e grande, mas a indústria também, pequena, média e grande, pode operar. A cooperativa pequena, média e grande pode operar. A cooperativa pode usar a ferramenta para garantir a compra de insumo dela e garantir o preço para o cooperado.

Quanto que eu preciso garantir de média? Eu preciso garantir uma casa decimal, duas casas decimais. Então, eu preciso travar esse leite em agosto a x reais. Vai lá, faz a operação, ela trava a compra e trava a venda do cooperado dela.

É uma ferramenta relativamente simples de se operar, ou seja, para que eu possa operar, eu preciso ter apenas uma conta na corretora. Obviamente, a corretora estará preparada para isso, ela tem pessoas técnicas lá que vão dar essa orientação: quando travar, como está o mercado futuro e que preço eles estão visualizando para o futuro. Assim como é na soja, no milho, no boi, funciona o mercado futuro do leite, como funciona todos os outros mercados futuros que a gente tem disponível hoje no mercado.  

Como o leite pago (ao produtor) é baseado no leite entregue no mês anterior, o que muda quando essa ferramenta é utilizada?
João Paulo Franco: Muda tudo, porque eu deixo de olhar para o retrovisor, eu deixo de olhar para o passado, como você colocou, e eu passo olhar para o futuro. Então eu sei exatamente quanto eu vou receber pelo litro de leite no mês seguinte, ou daqui dois meses. A gente fez um exercício com base nos dados do campo futuro, utilizando uma propriedade modal no Paraná, de x mil litros de leite.

Então, hoje, qual é o Custo Operacional Efetivo (COE) por litro de leite produzido? O COE por litro de leite produzido, eu vou trazer um valor fictício, tá? Mas vamos considerar que era dois reais. Então, para que esse produtor garanta o custo (o COE dele), ele teria que fechar 60,0% da produção. Então, hoje ele pode fechar um contrato garantindo 60,0% da produção dele, dos próximos meses, e ficar com 40,0% para negociar no dia, no preço balcão, assim como é no boi.

Então, o que acontece? Com isso, a ferramenta dá segurança para ele, porque os custos operacionais estão garantidos, e o que vier a partir dali, é lucro. Ele está colocando o dinheiro no bolso, ele sabe exatamente quanto que vai sobrar para ele.

O assunto do momento é o acordo entre União Europeia e Mercosul. Você acredita que os produtores precisam se preocupar com uma possível importação de lácteos vindos de países europeus, ampliando a competitividade de preços?
João Paulo Franco: Quando a gente fala do Acordo Mercosul-Europa, ele tem, sim, pontos de preocupação, né? A questão do crescimento das importações de produtos europeus para o Brasil é um ponto de atenção. Porque o Brasil reconhecidamente não é um país exportador de lácteos, ele não exporta leite em pó, mas a Europa, sim. E não só o leite em pó, como os queijos também. Só que tem um ponto positivo do acordo, é o reconhecimento das indicações geográficas brasileiras, como por exemplo a indicação geográfica da Canastra, que não tínhamos. Ela não era reconhecida pela Europa e que o acordo fora reconhecido, ela e outra indicações geográficas brasileiras, então isso é um ganho significativo para o Brasil. 

O segundo é, sim, um ponto de atenção, mas a gente tem que lembrar que esse volume, quando a gente olha para o volume total que pode vir, que ficou da cota para os lácteos, ele é um volume que vai ser fracionado ao longo dos anos. E, dentro desse contexto, a gente tem as medidas de proteção comercial, assim como a Europa tem a questão da salvaguarda, nós também temos.

O que a CNA tem proposto para o governo e para o mercado, para além do contrato futuro, para mitigar a crise que a pecuária leiteira vem enfrentando?
João Paulo Franco: Enquanto CNA, nós estamos extremamente atentos a esse ponto, tanto é que a gente pode usar a questão da investigação do anti-dumping que está acontecendo com relação ao leite da Argentina e do Uruguai para o Brasil. Nós estamos sempre atentos a essas questões, e olhamos o nosso objetivo que é trazer uma ferramenta que dê previsibilidade para o produtor, que o produtor possa garantir o seu custo operacional e possa ter previsibilidade de quanto ele vai receber, o quanto ele pode investir.

Mas também nós estamos atentos às questões comerciais, às barreiras tarifárias. Se tiver um aumento significativo fora do comum, a gente aciona as medidas de salvaguarda e tende a barrar essa importação. 

A equipe técnica iniciou a rota da Ordenha Brasil em 8 de junho, percorrendo propriedades leiteiras em Goiás, mapeando sistemas produtivos, indicadores e desafios da atividade. Para ficar por dentro de tudo o que está sendo visto a campo, acompanhe o perfil da expedição no Instagram @ordenha_brasil ou acesse o site www.ordenhabrasil.com.br

Informações: Scot Consultoria


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