Dólar dispara e atinge R$ 5,15 com dados fortes de emprego nos EUA

05/06/2026 às 18:03 atualizado por Antonio Perez - Estadão | Siga-nos no Google News
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O dólar disparou no mercado local nesta sexta-feira, 5, alinhado ao comportamento da moeda americana no exterior, após números fortes de geração de emprego nos EUA em maio estimularem apostas em alta de juros pelo Federal Reserve ainda neste ano. Rodando acima de R$ 5,15 desde o início da tarde, o dólar à vista encerrou em alta de 1,78%, a R$ 5,1572, na máxima da sessão e no maior nível de fechamento desde 2 de abril (R$ 5,1599).

A moeda americana acumula ganhos de 2,27% frente ao real na primeira semana de junho, após avanço de 1,82% em maio. No ano, as perdas, que chegaram a superar 10% quando a taxa de câmbio rondava R$ 4,90 no início de maio, agora são de 6,04%. Embora tenha sofrido mais do que pares hoje, o real ainda apresenta, em 2026, um dos três melhores desempenhos entre as divisas mais líquidas, tanto de países desenvolvidos quanto emergentes.

Termômetro do comportamento da moeda americana em relação a uma cesta de seis divisas fortes, o índice DXY superou os 100,000 pontos no início da tarde, no maior nível desde abril. O Dollar Index já avança mais de 1,10% em junho, passando a acumular valorização de cerca de 1,80% no ano.

"O ambiente de dólar mais forte está começando a se mostrar um obstáculo para o carry trade com o real", afirma, em nota, o chefe de estratégia de mercados do banco ING, Chris Turner, ressaltando que o panorama doméstico, com a melhora da aprovação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, também pesa sobre a moeda brasileira.

Turner pondera que, se não houver uma disparada das taxas dos Treasuries e da moeda americana, o real tende a encontrar "um bom suporte", uma vez que os juros locais ainda são elevados e o país mantém o status de exportador líquido de petróleo.

Sem indicadores de peso na agenda doméstica ou novidades no front político, o dólar até ensaiou uma baixa na abertura, com a retomada dos negócios no mercado local, que estiveram fechados ontem em razão do Dia de Corpus Christi. A maré virou a partir das 9h30, na esteira da divulgação do relatório de emprego (payroll) de maio.

O Departamento do Trabalho dos EUA informou que foram criadas 172 mil vagas no mês passado, bem acima do teto de 125 mil estimado pelos analistas consultados por Projeções Broadcast. Houve revisão para cima dos números de abril (de 115 mil para 179 mil) e de março (de 185 mil para 214 mil). Já a taxa de desemprego permaneceu estável, em 4,3%, e o salário médio por hora subiu 0,3%, em linha com as expectativas.

"O número do payroll reforça que o foco do Fed deve permanecer na inflação", afirma a economista Isadora Junqueira, da Az Quest. "Com inflação mais alta e mercado de trabalho mais forte, haveria pouco espaço para o Fed pensar em queda de juros. O cenário é cada vez mais de estabilidade ou alta."

Os rendimentos dos Treasuries subiram em bloco, em especial na ponta curta. O retorno do papel de dois anos - mais ligado às expectativas em torno da trajetória dos juros - subiu mais de 10 pontos-base, tocando 4,17%. Os preços do petróleo recuaram mais de 2%, mas sem trazer alívio à percepção de risco, uma vez que avançaram na semana e sem mantêm acima de US$ 90 o barril.

A ferramenta FedWatch, do CME Group, mostrou aumento das apostas em alta dos juros pelo Fed ainda neste ano após a divulgação do payroll. As chances de uma elevação na taxa básica americana em dezembro atingiram 70%. A maioria dos analistas, contudo, ainda vê o cenário de manutenção como mais provável.

O economista Paulo Gala, professor da FGV-SP, ressalta que os números do payroll tiveram impacto imediato no mercado local, levando o dólar para R$ 5,15, em um movimento que acentua a deterioração observada na última quarta-feira, "quando houve desmonte de posições em ativos brasileiros, com os juros longos disparando".

"Com a inflação já acima de 3% em apenas quatro meses e expectativas para o ano acima de 5%, o Banco Central brasileiro vê seu espaço para cortar a Selic encolher, ainda mais diante de um dólar pressionado e de uma economia americana que, apesar dos sinais mistos, continua de pé", afirma Gala, em relatório.


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