Pecuária

Viabilidade do Confinamento em 2019

Análise primeiro giro

12/03/2019 às 12h   |   Por Maurício Ribeiro - SBA

Em muitas regiões do Brasil pecuário, o confinamento tem início em cenário bastante desafiador para o pecuarista. De um lado da cerca, temos o primo rico, a indústria frigorífica, que aproveita as nuances do mercado para pressionar a remuneração da arroba para baixo. Tudo bem que estamos em início de safra, mas a oferta de bois para abate encontra-se restrita nas principais praças pecuárias, o que torna a manobra no mercado com pouca base de sustentação.

Do outro lado, vem o primo pobre, o pecuarista, que convive com um mercado altista, tanto na reposição das categorias animais, como também na compra de insumos para nutrição animal. Diante desse cenário, paira no ar o dilema, “o que fazer e como fazer” para viabilizar a operação de confinamento nesse primeiro giro? A verdade é que, mesmo diante das boas perspectivas de melhoria da economia, que prometem refletir positivamente sobre o aumento de consumo da carne bovina e nas exportações, por outro lado vêm de encontro o lado ruim da história, onde a baixa remuneração da arroba no mercado físico, a ausência de contratos mais otimistas de boi a termo e a falta de liquidez de algumas operações na BM&F trazem uma verdadeira incerteza para o pecuarista quanto ao custeio das operações, sejam elas de recria ou engorda em confinamento.

Já vimos algo parecido em 2016 e 2018, quando as tormentas de mercado pareciam dificultar a rota de navegação dos mais experientes “navegadores” da pecuária. Para o confinador, em 2019, a dúvida que surge é se o confinamento terá viabilidade econômica, principalmente para quem não tem estoque de passagem de insumos de 2018 para 2019 e fez uma reposição mais cara em 2018.

De toda forma, para responder a essa pergunta, simularemos os custos e resultados do confinamento nos diferentes Estados já tradicionais na operação de confinamento: São Paulo (SP), Minas Gerais (MG), Mato Grosso do Sul (MS), Mato Grosso (MT), Goiás (GO), Tocantins (TO) e Pará (PA).

Para o boi magro (360 kg – 12@), a cotação da Coan Consultoria na data de hoje (11/03/2019) indicou que essa categoria animal até que está valorizada (média de 11,26% de ágio sobre a arroba do boi gordo) nas praças pecuárias pesquisadas, conforme demonstrado na Tabela 1.

 

Tabela 1. Preço do boi magro, do boi gordo à vista e ágio por arroba de boi magro nos diferentes Estados.

O custo operacional (depreciações, manuseio e distribuição da dieta) foi estimado em R$1,41/cabeça/dia para todos os Estados, tendo como referência a base de dados da Coan Consultoria para o ano de 2018. O frete foi estimado em R$42,00/cab.

Quanto ao plano nutricional, procurou-se simular as dietas para maior eficiência produtiva e econômica, utilizando-se, para tanto, do software LRNS (Large Ruminant Nutrition System).

Os animais considerados no cálculo são da raça Nelore, com peso inicial de 360 kg (12@), peso final de 544 kg (20,16 @ /Rendimento de Carcaça = 55,60%), tamanho corporal médio, machos não castrados, com ganho de peso estimado de 1,62 kg/dia, ganho de carcaça de 1,078 kg/dia e 8,16 arrobas colocadas no período (114 dias). A ingestão de matéria seca (IMS) média foi estimada em 10,72 kg/cab/dia, implicando em uma eficiência biológica de 139,52 kg de MS/@ colocada e eficiência alimentar de 0,151.

Os insumos utilizados nas simulações foram a silagem de milho, milho moído, polpa cítrica peletizada (SP e MG), farelo de soja, farelo de algodão 38, torta de algodão, caroço de algodão e núcleo mineral com aditivos e vitaminas. As cotações dos insumos, de acordo com o plano nutricional “desenhado”, posicionaram os custos de matéria seca das dietas em patamares não muito competitivos, quando comparado com os dados de 2018 para o mesmo período, haja visto que muitos insumos se encontram com elevada precificação, em decorrência do período de entressafra. A Tabela 2 demonstra os custos de matéria seca (R$/kg) das dietas e da diária alimentar (R$/cab/dia) para os diferentes Estados.

Tabela 2. Custo (R$/kg de MS) das dietas e diárias alimentares (R$/cab/dia) para os diferentes Estados.

 

O protocolo sanitário considerou a aplicação de endectocida de largo espectro, vacina contra Clostridioses e DRB (Doença Respiratória Bovina) e ectoparasiticida, totalizado o custo por animal em R$10,40.

Com as informações descritas acima, realizamos os cálculos de custos da arroba produzida e da arroba engordada, conforme demonstrado na Figura 3.

Figura 3. Custos da arroba engordada e da arroba produzida por Estado.

Para o cálculo do lucro operacional (R$/cab/período) consideramos o custo alimentar, o preço do boi magro, o custo do protocolo sanitário, o custo do frete e o custo operacional durante o período de operação. Para a remuneração da arroba, consideramos diferentes cenários, partindo de uma remuneração mínima de R$140,00/@ e máxima de R$160,00/@, com variação de R$5,00/@.

Nas Tabelas 3 e 4, podem-se visualizar a estimativa do lucro operacional (R$/cab./período) e a rentabilidade (%/cab./período) na operação de confinamento para o primeiro giro de 2019.

 

Tabela 3. Lucro operacional (R$/cab/período) por Estado.

 

Tabela 4. Rentabilidade operacional (%/cab/período) por Estado.

 

As informações descritas acima (Tabelas 3 e 4) deixam claro que a atividade de confinamento não se posiciona muito atrativa na atual conjuntura de mercado, principalmente para quem opera no modelo de “confinamento negócio”, em que a compra do boi magro e de insumos é o principal entrave para viabilizar economicamente a operação.

Para o pecuarista que usa o confinamento como estratégia, o cenário é um pouco diferente, pois os custos envolvidos na recria a pasto são mais competitivos, e dificilmente os bois magros produzidos nesse sistema chegam ao confinamento tão precificados. É natural que, nos sistemas de recria/engorda ou ciclo completo, o boi magro tenha um custo menor de produção do que àquele que foi adquirido para a operação exclusiva.

Outro aspecto de relevância desse sistema é que há maior previsibilidade quanto ao número de animais a serem confinados, o período de confinamento, a data de abate e, consequentemente, a demanda de insumos (grãos e co-produtos), o que permite à essa modalidade de confinamento a compra antecipada de insumos e o uso de ferramentas de gestão de preços, como algumas oportunidades de negócio oferecidas pela BM&F/Bovespa, visando negociar contratos ou opções.

Por fim, o confinamento estratégico, invariavelmente, deixa boas margens ao pecuarista; diferentemente da modalidade “negócio”, em que confinar por confinar parece não ser a melhor estratégia nesse primeiro semestre de 2019. Logicamente que essa abordagem pode mudar de patamar para os pecuaristas com vocação agrícola e escala produtiva, onde é possível produzir grande parte de sua dieta (silagens, grãos úmidos e grãos) à preços muito competitivos.

E você pecuarista, já fez as contas para viabilizar o confinamento em 2019?

Rogério Marchiori Coan


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