Agronegócio

Diretor do MilkPoint se diz otimista com acordo comercial para o setor de lácteos

Brasil deve receber maior cota do leite importado da UE

11/07/2019 às 12h   |   Por Jorge Zaidan - SBA

Em texto produzido a pedido do Canal do Boi, o diretor do MilkPoint, portal dedicado à cadeia produtiva do leite, diz que vê com otimismo o acordo estruturado entre países do Mercosul e da União Europeia. O acordo prevê comércio bilateral com redução ou isenção de tarifas de importação.

O setor leiteiro do Brasil está preocupado com a possibilidade de entrada, a preços competitivos no Brasil, de leite em pó e queijos europeus. Em tese, a importação de produtos mais baratos, originários de produtores que recebem subsídio oficial, pode prejudicar as atividades primária e industrial leiteira do Brasil, onde o produtor não recebe incentivos para a produção sustentável (leia-se: produção capaz de sustentar a família do produtor)

Marcelo Pereira de Carvalho pondera que o setor terá tempo de se adaptar à nova ordem comercial, já que a implantação de cotas e cortes de tarifas se dará em dez anos.

O diretor do MilkPoint acredita que o impacto maior será para os queijos. Ele argumenta que “as 30 mil toneladas ao final dos dez anos representam 50% a mais do que o Brasil importou em 2018”. Mas ressalta que “a UE não vai exportar pra cá as commodities (muçarela, prato, requeijão) que fazem o grande volume de mercado aqui e que representaram quase 50% das nossas importações atuais”.

A seguir, o artigo na íntegra.

Marcelo Pereira de  Carvalho*

Vejo com otimismo o acordo Mercosul/União Europeia, ainda que, para os lácteos, estejamos no lado mais fraco da equação, comparado a outras cadeias do agronegócio.

Houve bastante cuidado em não criar uma ruptura no setor a partir do acordo, tanto considerando-se os volumes, como considerando-se o período de desgravação, de 10 anos. Conseguiu-se um acordo que, se sinaliza uma abertura gradual do mercado do Mercosul, por outro lado considera quotas-limite e um período de 10 anos de desgravação das tarifas, o que nos dá um tempo para adaptação, sem contar que a aprovação pelos respectivos parlamentos deve demorar ainda cerca de dois anos.

 Partindo do princípio de que todo o leite importado da UE virá preferencialmente para o Brasil, para leite em pó, o impacto deve ser relativamente pequeno. A quota de 10 mil ton/ano representa cerca de 15% do que o Brasil importou em 2018 e cerca de 1,3% do que consumimos desse produto.

Para fórmulas Infantis a leitura é a mesma: a cota de 5 mil toneladas já é o que o Brasil importou em 2018 da UE, enquanto foram importadas quase 10.000 toneladas da Argentina. O volume interno consumido é significativamente maior.

 Para queijos, o impacto será um pouco maior: as 30 mil toneladas ao final dos 10 anos representam 50% a mais do que o Brasil importou em 2018. Porém, é importante ressaltar que a UE não vai exportar pra cá as commodities (muçarela, prato, requeijão) que fazem o grande volume de mercado aqui e que representaram quase 50% das nossas importações atuais. Assim, as 30 mil tons que são a quota devem entrar em mercados de queijos de maior valor agregado (gorgonzola, brie, etc.) e aí provavelmente numa % mais significativo. Mas mesmo assim, as 30.000 toneladas representam bem pouco perto do consumo total de queijos, na faixa de 1,2 milhão de toneladas/ano no Brasil.

Acho que o acordo não apresenta grandes riscos para os países do bloco Mercosul no que se refere aos lácteos, devendo-se exaltar o papel negociador dos Ministérios da Agricultura dos países do bloco, bem como da iniciativa privada, que municiou os governos com informações importantes para fazermos um acordo tão estratégico. Além disso, o acordo com os lácteos está inserido em um contexto muito mais amplo, abrangendo diversos setores e um estreitamento muito maior entre a economia dos 2 blocos, em um momento em que o mundo assiste a guerras comerciais entre países líderes, como Estados Unidos e China.

A perspectiva otimista é que caminhamos no sentido de um mercado de lácteos menos protegido no mundo, o que é positivo sob uma perspectiva geral. Por outro lado, o bloco (e o Brasil especialmente) precisa aumentar sua competitividade para que possamos lidar com a possibilidade de competir de igual para igual com um grande e tradicional exportador como a UE.

*Marcelo Pereira de  Carvalho é diretor executivo da AgriPoint e coordenador do MilkPoint.


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